Perry Rhodan |
(P002)
A Terceira Potência
Autor
Digitalização
Okidoki
Revisão
Yuna e Arlindo_San
Perry Rhodan e mais três
oficiais da Força Espacial dos Estados Unidos haviam pousado na Lua a bordo da
nave Stardust.
Lá encontraram a gigantesca
nave espacial dos arcônidas, que tinha realizado um pouso de emergência. Era
tripulada pelos representantes de uma grande potência galáctica que, apesar de
sua superioridade técnica e científica, estavam em decadência. O
cientista-chefe da expedição, um dos poucos que não fora atingido pela total
apatia que dominava os tripulantes, padecia de uma enfermidade do sangue que só
a medicina terrena podia curar.
Perry Rhodan decide ajudar os arcônidas: retorna à Terra em companhia de Crest, o
cientista-chefe e, ao invés de aterrissar em território dos Estados Unidos,
prefere a solidão do deserto de Gobi a fim de evitar que os avançados
conhecimentos arcônidas caiam nas mãos de qualquer potência terrena.
Rhodan tem motivos de sobra para proceder dessa forma.
Seus superiores hierárquicos, contudo, vêem
nele um traidor...
= = = = = = = = = =
Personagens Principais: = = = = =
= = = = =
Major Perry Rhodan — Comandante da nave
Stardust.
Capitão
Reginald Bell — Engenheiro eletrônico da. Stardust.
Capitão
Clark G. Fletcher — Astrônomo da Stardust.
Tenente-médico
Eric Manoli — Médico de bordo da Stardust.
General Lesley Pounder — Chefe da Força Espacial
dos Estados Unidos.
Allan D. Mercant — Chefe do Conselho
Internacional de Defesa.
Crest — Chefe científico da
expedição de uma raça extraterrena.
Professor Lehmann — Diretor da Academia de
Tecnologia Espacial da Califórnia e pai espiritual da Stardust.
Major
Perkins —
Agente dos países do Ocidente. Vai em direção à sua autodestruição sem de nada
desconfiar.
Marechal Roon — Comandante-chefe da
Federação Asiática.
Dr. Frank M. Haggard — Descobridor do soro
anti-leucêmico.
Klein, Li Shai-tung e Peter Kosnow — Agentes que saíram com a missão de matar Rhodan.
O silêncio era enganador.
A superfície do lago salgado de Goshun, situado ao
norte da China, apresentava-se lisa como um espelho. Calmo e sem vida,
estendia-se no deserto imenso. Não soprava a mais leve brisa. O ar quente e
seco oprimia os homens. Parecia tremular sobre as pedras escaldantes e subia,
perdendo-se na imensidão azul do céu sem nuvens. Bem ao longe, uma cadeia de
montanhas destacava-se contra o horizonte. Era de lá que vinha o rio, cujas
águas alimentavam o lago salgado. Constava dos mapas da região com o nome de
Morin-Gol.
Era a única coisa viva que aparecia na paisagem
dessa parte do deserto de Gobi. Arrastava-se preguiçosamente; não era muito
largo nem profundo e nunca secava. Sua presença era o único sinal visível de
vida naquela região inóspita.
Nenhuma planta crescia naquele solo pedregoso
e nenhum animal encontraria alimento em meio àquelas rochas. Excluindo o deslizar manso do
rio, não parecia haver o mais tênue sinal de vida pelos arredores, mas o
silêncio parecia esconder alguma coisa.
Aquele objeto esguio e prateado que se via
perto da margem do rio destoava da paisagem agreste e solitária. Era uma nave de mais
de trinta metros de comprimento. Seu corpo aerodinâmico e suas asas em forma de
delta ofereciam um contraste flagrante face à natureza hostil do lugar.
A nave, batizada com o nome de Stardust,
tinha sido a primeira a pousar na Lua. Ao retornar ao nosso planeta, o
comandante decidiu aterrissar no deserto de Gobi. Este fato, agora já conhecido por todos,
causou perplexidade e revolta nos governos das grandes potências. No entanto,
só uns poucos desconfiavam que não se tratava de um pouso
de emergência, mas de uma manobra deliberada.
Uma escotilha retangular abriu-se em um dos
lados do corpo da nave. Um homem apareceu na abertura e olhou para a solidão do deserto. Seu olhar
passou para além do rio e perscrutou as montanhas; depois, procurou o lago e
deteve-se no mesmo. O capitão Reginald Bell, piloto da Força Espacial dos
Estados Unidos e engenheiro da Stardust, aspirou avidamente o ar, embora este
pudesse ser tudo, menos refrescante. Trajava o uniforme azul da Força Espacial
e trazia a boina debaixo do braço direito.
Um tênue sinal de esperança iluminou seus olhos
quase descorados quando se virou e gritou para o interior da nave:
— Pode-se
tomar banho nessa poça d'água?
Alguém emergiu da penumbra do corredor e
colocou-se ao lado de Bell. Usava o mesmo tipo de uniforme, mas não tinha as
platinas e os passadores no peito. Aparentava uns trinta e cinco anos. Era
magro e seu rosto, com os olhos duros, cinzentos azulados, era encimado por uma
curta cabeleira castanho-escura. Tratava-se do major Perry Rhodan, comandante
da Stardust e chefe da primeira expedição lunar.
— É
claro que pode — disse em resposta à pergunta de Bell. — Mas a água é morna;
não refresca. Além disso contém sal demais para o meu gosto.
— Sempre
gostei de comida bem temperada — observou Bell. — Em caso de necessidade, eu
bebia toda a água desse lago.
— Você
teria uma surpresa. Comparada com esse líquido, a água do Atlântico até parece
refresco.
Bell olhou o Sol, que estava quase atingindo
o zênite.
—
Seria bom que houvesse tempo para isso! Acho que não nos deixarão em paz por
muito tempo. Será que Crest tem algum meio de nos proteger?
Crest era o cientista-chefe de uma expedição extraterrena que havia
pousado na Lua. Há milênios sua raça dominava boa parte da
Via Láctea, mas, a essa altura, já entrara em decadência. O próprio Crest
sofria de leucemia. Se os homens não o ajudassem, estaria irremediavelmente
perdido. Foi esta a razão que o levou a embarcar na Stardust para vir à Terra.
Este era o segredo que a Stardust trazia em
seu bojo e que, até
então, não havia sido revelado a ninguém.
— O
anteparo protetor deve ser suficiente. Pelo que Crest diz, não há nada que
possa atravessá-lo, nem mesmo uma bomba atômica. Basta ligar uma chave para que
sejamos cobertos por uma cúpula transparente contra a qual todo o mundo a que
pertencemos atacaria em vão.
— Isso
me tranqüiliza bastante — Bell acenou a cabeça num gesto de aprovação. — Os
amarelos não tardam a chegar. Provavelmente pensam que foi erro nosso e que, a
esta hora, estamos esperando que eles venham nos buscar. Devem estar morrendo
de ansiedade pelos segredos da Stardust.
— Eles
ficariam apalermados de tanta curiosidade se soubessem que passageiro temos a
bordo — disse Rhodan. — É verdade que só recebi ligeiras indicações do poderio
dos arcônidas. Uma coisa, porém, é certa. Crest tem condições de dominar o
mundo sem qualquer auxílio. Dentro de algum tempo, certas pessoas vão ficar
desesperadamente furiosas conosco.
Uma sombra fugaz atravessou o rosto largo de
Bell.
— Infelizmente,
é provável que nossa própria gente também fique. Será que não poderíamos, ao
menos, explicar-lhes o motivo que nos impediu de descer em Nevada Fields?
Perry sacudiu a cabeça.
— Você conhece o general Pounder. Acha que
ele ia abrir mão das enormes vantagens que poderia tirar do nosso hóspede
extraterreno? Isso, sem falar no pessoal do Serviço Secreto e do Conselho Internacional de Defesa. Quando me lembro de um certo
Mercant...
Allan D. Mercant era o chefe do Conselho
Internacional de Defesa, subordinado apenas ao comando supremo da OTAN. Era
dirigente do setor especial designado oficialmente como Agência de Informação e
Segurança. Não existia um único país onde Mercant não tivesse os seus agentes.
Bell suspirou e voltou a falar.
— Mas
compreendo a atitude de Fletcher. É muito natural que queira voltar à sua
terra. É possível que, no fundo do coração, reconheça o acerto de impedir que
qualquer nação se apodere de Crest. Mas vive pensando na esposa e na criança
que está para nascer. Duvido que a gente consiga segurá-lo para sempre.
— Ele
pode ir embora quando quiser — disse Perry para surpresa de Bell.
Este engoliu em seco.
— Ir
embora? Para onde? — apontou em direção ao deserto. — Por aí? Quer que ele se
perca?
— Não
vamos ficar sós por muito tempo. — Perry olhou para o relógio. — Estou admirado
de que ainda não tenha surgido nenhum avião de reconhecimento.
Acenou com a cabeça para Bell e voltou para
o interior da nave. No compartimento um tanto apertado, o Dr. Manoli estava
sentado junto ao leito em que Crest repousava. O capitão Fletcher estava perto
da escotilha de vidro. Olhava para o deserto com os lábios cerrados.
— Então?
— perguntou Perry que percebera o olhar de Manoli. — Como vai o nosso doente?
Antes que o médico pudesse responder, Crest falou:
— Obrigado,
major. Sinto-me fraco; só isso. O ar do seu planeta me faz muito bem. Acredita,
realmente, que poderá ajudar-me a ficar bom?
O mal que atacara Crest, a leucemia,
consistia na multiplicação
exagerada dos glóbulos brancos do sangue. O que, pouco a pouco, acabava com os
glóbulos vermelhos. De certa forma, o paciente
morre por asfixia, embora continue a respirar normalmente pelos pulmões. O problema é que o
oxigênio que chega aos pulmões de nada serve se não estiverem presentes os
glóbulos vermelhos que o transportam aos diversos órgãos. O primeiro sintoma é
o cansaço, o paciente enfraquece a olhos vistos. A decadência orgânica é
seguida pelo definhamento mental. A morte é inevitável.
Todavia, cerca de dois anos antes, tinha sido
descoberto, por um pesquisador australiano, o remédio contra a leucemia: o soro anti-leucêmico.
— É
claro que poderemos ajudá-lo, Crest. Mas, para isso, é necessário que confiemos
um no outro. Estou interessado nas invenções de seu povo, no seu
desenvolvimento técnico e científico e, falando com franqueza, nos seus
armamentos. Em troca disso, ofereço-lhe a cura e a completa regeneração. É um
negócio simples, como qualquer outro.
— Sua
sinceridade é muito reconfortante. Há muitos milhares de anos nosso povo também
era assim. Hoje, muitos de nós estamos demasiado cansados para sermos sinceros.
Parece-me que poderíamos aprender alguma coisa com seu povo.
Rhodan pensava nos arcônidas estendidos nos seus
leitos a bordo da nave pousada na Lua e que, para afugentar o tédio,
contemplavam os quadros abstratos e irreais que apareciam nas telas.
O grau de apatia a que chegaram impedia-os,
sequer, de tentar o reparo da própria nave. O exercício do poder, por
milhares de anos, e os robôs, verdadeiros servos incansáveis, haviam
transformado os arcônidas em um povo sem qualquer outra motivação que não fosse
ficar deitado e sonhar de olhos abertos.
— Também
entre nós a renovação do sangue é considerada o melhor remédio contra a
degenerescência e a decadência genética — disse Rhodan.
Crest ergueu-se na cama. Recostou-se contra a
parede. Era cerca de um palmo mais alto que Rhodan. Seu aspecto exterior pouco
o distinguia dos homens. O que lhe conferia uma aparência estranha eram os
cabelos quase totalmente brancos, os olhos despigmentados e a testa de altura
descomunal. Detrás dela, porém, havia uma peculiaridade invisível ao olho
humano. Além do cérebro normal, dispunha de um cérebro suplementar, como não
existe em qualquer ser vivo na Terra. Esse cérebro era um potente centro de
armazenamento de dados e uma espécie de memória fotográfica. Outra coisa
ignorada pelos homens era a placa protetora do coração e dos pulmões que, no
seu peito, substituía as costelas.
Crest era o último dos descendentes da dinastia reinante
em Árcon, o planeta que servira de berço à sua civilização e, sendo cientista,
interpretou literalmente a observação de Perry Rhodan.
— É
provável que uma renovação do sangue apresentaria resultados positivos.
Acontece que qualquer cruzamento com um membro de uma raça primitiva, ou
melhor, uma raça que ainda não atingiu determinado grau de evolução,
constituiria uma violação da lei dos arcônidas.
— Sossegue
— disse Rhodan com um sorriso irônico. — Não pretendo me casar com Thora.
Bell, que acabava de entrar, soltou uma
gargalhada enquanto Manoli, preocupado, tomava o pulso do seu paciente.
Fletcher não
demonstrou o menor sinal de que tivesse ouvido alguma coisa.
Por um instante, Rhodan imaginou-se de volta à gigantesca nave espacial
dos arcônidas. Viu, diante de si, Thora, a comandante da expedição que saíra à
procura do planeta da vida eterna. Era uma mulher alta, muito bela. Tinha os
cabelos claros, quase brancos, e seus grandes olhos brilhavam com um tom
vermelho dourado..
Seria uma mulher? Talvez fosse no seu aspecto
exterior. Mas era só
isso. Na realidade, não passava de uma calculista fria, dotada de um raciocínio
cristalino e de um intelecto altamente desenvolvido. Sua conduta era marcada
por um preconceito extremo contra os seres inferiores. Foi somente o raciocínio
lógico que a levou a entrar em acordo. Sabia,
perfeitamente, que não
lhe restava outra alternativa, a não ser que quisesse passar o resto dos seus
dias na Lua.
Crest abanou lentamente a cabeça.
— Admiro
a sua fantasia. Mas creio que não convém perder tempo com palavras inúteis.
Devemos pensar no que vamos fazer. Você me prometeu auxílio...
— E
terá auxílio — asseverou Rhodan. Depois, dirigindo-se a Bell, prosseguiu: —
Você terá que deixar o banho para mais tarde. Por enquanto, procure captar as
notícias que andam por aí. Faça o possível para registrar as transmissões mais
importantes. Precisamos saber o que está acontecendo no mundo.
— Se
alguém pretender lançar um ataque contra nós, não nos avisará com antecedência.
Prefiro falar com Pounder.
— Por
enquanto, não. Vamos permanecer calados. Eles que dêem tratos à bola para
descobrir por que não respondemos às suas mensagens. Terão de ficar maduros
para aquilo que pretendo fazer.
— Maduros!
— Bell abriu a porta que dava para a sala de rádio e radar. — Acho que, daqui a
pouso, somos nós que estaremos maduros!
Perry não se preocupava com Bell. Conhecia-o e sabia
que poderia confiar nele.
— Eric,
preocupe-se exclusivamente com Crest. Fletcher, peço-lhe que cuide logo da
comida. É possível que, mais tarde, não haja tempo suficiente para isso.
Enquanto isso eu cuido da nossa situação estratégica. Quais foram as armas que
Thora entregou, Crest?
O arcônida continuava sentado na cama, com as mãos
entrelaçadas.
— Acho
que, por enquanto, o mais importante é o anteparo energético. Trata-se de um
dispositivo puramente defensivo, mas que apesar disso, não deixará de
impressionar um eventual agressor. Além disso, dispomos de três armas manuais,
os psico-irradiadores. Sua intensidade é regulável. Com a regulagem máxima,
consegue-se a paralisação psíquica de um
homem a dois quilômetros
de distância, mas nunca se pode causar sua morte. Com uma intensidade menor, a
consciência da pessoa atingida é debilitada de tal forma que será fácil assumir
o comando sobre seu corpo. Como se não bastasse, podem ser transmitidas ordens
pós-hipnóticas que serão executadas em quaisquer circunstâncias, mesmo quando a
pessoa atingida já se encontra fora do alcance das psico-irradiações. Tudo isso
vem acompanhado de uma amnésia artificial. A pessoa não se recorda de coisa
alguma.
— Isso
já nos serve — disse Rhodan. — Há mais alguma coisa?
— Só
o transmissor que nos permite entrar em contato com Thora a qualquer momento.
Conforme é do seu conhecimento, as ondas emitidas pelo mesmo atravessam a Lua.
Sem isso, não conseguiríamos nos comunicar com ela, já que a nave está pousada
na face oculta do satélite.
Rhodan ficou por uns momentos com o ar
pensativo. Crest compreendeu que algo o preocupava.
—
Não se preocupe. O anteparo energético e o irradiador manual bastam. Se
surgirem problemas mais graves, Thora intervirá.
— Que
tal o neutralizador de gravidade que o senhor colocou a bordo para facilitar a
decolagem quando viemos da Lua?
— Ah,
sim! Já ia me esquecendo dele, se bem que ele não possa ser considerado uma
arma. Seu alcance é enorme: mais de dez quilômetros. E funciona tanto na base
da radiação direcional como na da radiação circular. Pode-se diminuir
sensivelmente ou até eliminar a gravidade da Terra num retângulo de dez
quilômetros de comprimento e a largura que se desejar, ou então num círculo de
vinte quilômetros de diâmetro, que terá por centro o irradiador, ou seja, no
nosso caso, a Stardust.
— Excelente!
— exclamou Rhodan. — Acho que isso basta.
Dirigiu-se à porta.
Fletcher passou os olhos pelo deserto.
Depois, lançou
um olhar provocador para Rhodan, mas, quando se defrontou com os olhos do
comandante, que pareciam de aço, limitou-se a um ligeiro aceno de cabeça.
— Está
bem, Perry. Oportunamente falaremos sobre o resto.
Bell abordou Perry junto à escotilha de saída.
— Está
havendo interferência nas transmissões. Não consigo pegar os Estados Unidos.
Todas as freqüências estão ocupadas. Mas há um emissor muito forte que deve
estar bem próximo de nós. O sujeito fala inglês com sotaque. Diz que não
devemos tomar nenhuma providência porque a operação de resgate já está em
andamento.
— Operação
de resgate! — disse Rhodan. — É uma expressão muito bonita para designar aquilo
que os chineses pretendem fazer. Responda que não queremos qualquer auxílio.
Bell não respondeu. Olhou para longe. Uma nuvem de
pó levantou-se do outro lado do rio, perto das colinas. Parecia um lençol sujo
estendido por cima do deserto. Pontinhos minúsculos moviam-se em direção ao
lago salgado. Perry seguiu o olhar do amigo.
— Ah,
está na hora! Estão chegando. Veja! Um helicóptero!
Os rotores que giravam com o zumbido característico mal se distinguiam
no ar que tremulava no calor. A fuselagem delgada faiscava ao sol ofuscante.
Quando desceu, a menos de cem metros da nave, a areia foi atirada para o alto.
— Bell,
fique aqui. Segure um dos irradiadores e aguarde um sinal meu. Regule para a
intensidade máxima. Vou falar com eles.
— Mas...
— Não
hã nenhum mas. Esta gente nos quer vivos. Não há perigo.
Bell desapareceu no interior da nave. Dentro
de cinco segundos estava de volta. Segurava um bastão prateado com uma lente
na ponta. Havia um botãozinho vermelho deslocável, que podia ser firmado
em qualquer posição.
Perry acenou com a cabeça e desceu a escada. Foi
andando em direção ao helicóptero, do qual haviam saído dois homens que
envergavam o uniforme da Federação Asiática. Enquanto aguardavam, olhavam-no
com curiosidade.
O piloto permaneceu na cabina do helicóptero. Soltou o manete de
direção e pegou uma pistola automática.
No rosto de Rhodan surgiu um sorriso de
compaixão.
Essa gente teria uma surpresa enorme.
Os dois oficiais vieram ao seu encontro.
Falavam inglês
quase sem sotaque.
— Ficamos
satisfeitos em ver que conseguiu realizar um pouso tranqüilo — disse o oficial
mais graduado. — Sou o marechal Roon, comandante das forças terrestres do nosso
império. Este aqui é o major Butaan.
— Perry
Rhodan — apresentou-se Rhodan, inclinando-se ligeiramente. — O que desejam?
Os dois homens ficaram mudos de espanto.
Olharam-se ligeiramente e depois lançaram um olhar indagador ao cosmonauta.
Estavam convencidos de que o mesmo precisava de auxílio.
Perry esboçou um sorriso gentil.
— Foi
muita gentileza tomar todo este trabalho, mas as providências destinadas a nos
ajudar são inúteis. Para tranqüilizá-los quero acrescentar que, se estivesse
falando com um oficial do exército americano ou russo, a resposta seria
idêntica.
— Não
compreendo — disse Roon, enquanto sua mão alisava a calça do uniforme, que
ficara amassada com a longa permanência no helicóptero. — O senhor realizou um
pouso de emergência, não é mesmo? Está precisando de auxílio. Ou será que está
em condições de decolar com seus próprios meios?
— E
se estivesse?
— Não
poderíamos permitir a decolagem, já que o senhor aterrissou em território
chinês.
Perry sorriu.
— Ah,
agora está começando a falar com sinceridade. O que lhe interessa não é
ajudar-nos, mas agarrar-nos. Muito bem bolado. Acontece que não pousamos aqui
para sermos presos pelo senhor.
Roon ia dar uma resposta violenta, mas foi
contido por um olhar de advertência do major que o acompanhava. Controlou-se
imediatamente. Tudo indicava que o major exercia uma influência bastante
acentuada sobre o comandante do exército.
— Ninguém
está falando em restringir sua liberdade de locomoção. É evidente que teremos
de revistar a nave para verificar se não tiraram fotografias sobre o território
da Federação Asiática.
— Fizemos
mais que isso. Fotografamos toda a Terra; da Lua. Será que isso é proibido? A
nave dos senhores não tira fotografias?
Os dois oficiais olharam-se rapidamente.
— Nossa
nave foi destruída logo após a decolagem. Foi sabotagem. Não sabia disso?
Perry ficou abalado. Para ele, a conquista do
espaço
interessava a toda a humanidade. Sabia que as fronteiras que separam os povos
só seriam demolidas depois de reconhecida sua insignificância face às
fronteiras mais amplas do espaço. Não reconhecia nenhuma diferença entre as
raças e as nações. Para ele, todos eram homens, terrenos. Alegrar-se-ia com o
êxito de qualquer expedição à Lua, ainda que a mesma fosse realizada por um
inimigo seu — se tivesse um. Foi, portanto, em virtude de um impulso espontâneo
que se dirigiu ao marechal, estendendo-lhe a mão.
— Lamento
muito. Não sabia. Foi sabotagem?
Roon
fez de conta que não estava vendo a mão que
Perry lhe estendia.
— Só
pode ter sido. Os nossos cientistas mais competentes examinaram a nave na
decolagem. Não encontraram o menor defeito. Ao atingir cem quilômetros de
altitude a nave partiu-se em duas e caiu ao solo.
— Existem
milhares de circunstâncias que podem
determinar uma falha. Não
existe nenhuma prova de que tenha sido sabotagem.
— Um
elemento a soldo do Ocidente entrou furtivamente na nave e danificou o reator.
— Besteira!
— disse Perry em tom áspero. — Não se deve procurar encobrir os próprios
fracassos.
Sentiu-se contrariado pela suspeita
insultuosa dos asiáticos.
Roon não era chinês; provavelmente seria natural da Índia ou de alguma ilha.
— Nenhum
de nós teria interesse em impedir sua viagem à Lua — prosseguiu Perry. — Mas
não falemos mais nisso. O que deseja de nós?
Pela primeira vez o major dirigiu-lhe a
palavra.
— Pousou
neste local por sua livre vontade? — indagou.
Era uma pergunta muito direta. Perry decidiu
dar uma resposta igualmente direta.
— Perfeitamente.
Se quiséssemos poderíamos ter pousado no deserto do Saara ou na América.
— Por
que pousou justamente aqui?
— Temos
nossos motivos. Vejo-me forçado a pedir que daqui por diante considere o trecho
de terra que circunda esta nave como território submetido à soberania de uma
potência neutra, embora o mesmo se encontre dentro das fronteiras do seu país.
Seu povo não faz nenhum uso deste deserto; portanto, a nossa decisão não lhe
acarretará qualquer prejuízo econômico. Garantimos-lhes a não-interferência nos
assuntos internos do seu país e respeito às fronteiras do mesmo. Realizaremos
negociações diretas com seu governo. Quanto ao senhor, marechal Roon,
recomendo-lhe que ordene às tropas que se dirigem para cá, a fim de transformar
a nave americana numa presa valiosa, que façam meia-volta. Estamos entendidos?
O major Butaan recuou um passo. A sua mão direita repousava sobre
a coronha de uma pesada pistola. Apertou os lábios. Seus olhos chamejaram.
O marechal Roon conseguiu controlar-se. Com
um sorriso cativante, falou:
— O
senhor só pode estar brincando, major Rhodan.
Cabe-nos o direito de revistar qualquer objeto voador que pouse no território submetido à nossa
soberania. Se não houver motivos para suspeita, será liberado. Acho que sua
observação relativa a uma potência neutra só pode ser considerada uma piada de
mau gosto.
— Interprete
minhas palavras como quiser, mas não diga que não foi prevenido. E agora, passe
bem. Provavelmente, ainda nos encontraremos outras vezes.
— Um
momento!
O major Butaan puxou a arma e apontou-a para
Rhodan. Era uma pistola de grosso calibre que lançava balas explosivas. Um pouco antiquada,
mas muito eficiente, principalmente a pouca distância.
Perry cruzou os braços sobre o peito. Sentia
atrás dele, a menos de oitenta metros, a presença de Bell pronto a experimentar
o neutralizador. Certamente já o teria feito se Rhodan não estivesse no campo
de ação do aparelho.
— Pois
não.
— Major
Rhodan, o senhor é um espião. Esta nave não passa de uma base americana que os
senhores fizeram pousar propositalmente neste local. Certamente esperavam ser
tratados com condescendência porque iríamos acreditar que se encontrassem em
dificuldades. Acontece que descobrimos o seu jogo e...
— Não
prometa aquilo que não pode cumprir — advertiu-o Rhodan. — Nosso pouso neste
local deixou os americanos tão surpresos quanto os senhores. Também não têm a
menor idéia das nossas intenções. E também seriam repelidos se procurassem aproximar-se
de nós. Compreenderam? Muito bem! Nesse caso permitam que volte à minha nave.
Repito, marechal: retire suas tropas, pois do contrário não me responsabilizo
pelo que vier a acontecer.
Cumprimentou os dois oficiais com um aceno de
cabeça,
lançou um olhar de advertência ao piloto que segurava a pistola automática,
voltou-se e foi andando devagar em direção à Stardust. Bell estava no topo da escada de acesso, indeciso, com o bastão prateado na mão.
Percebia-se o seu alívio quando viu, finalmente, o comandante se afastar da
área de alcance da arma.
— Devíamos
fazer uma brincadeira com eles — gritou para Rhodan. — Esse sujeito de calças
cinzas deve ser general. Poderíamos incutir-lhe a idéia de que é porteiro de
circo e mandá-lo-íamos de volta ao emprego. Seria engraçado.
Rhodan atingiu o primeiro degrau e voltou-se.
O marechal Roon e o major Butaan — e ele apostaria qualquer coisa como este
último pertencia ao serviço de contra-espionagem — continuavam parados no mesmo
lugar, indecisos, na expectativa. Butaan ainda tinha a arma na mão.
— Não
vejo nada de mal numa brincadeira — respondeu Rhodan, depois de ter chegado ao
lugar em que Bell se encontrava. — Traga o neutralizador, depressa!
— O...
?
Bell não disse mais nada. De um salto desapareceu
no interior da nave. Voltou alguns momentos mais tarde com uma pequena caixa
metálica na mão. Apesar do seu aspecto simples, ele concentrava uma quantidade
enorme de energia, concentrada num espaço extremamente reduzido. Crest chamara
o aparelho de neutralizador da gravidade. Quanta coisa não encerrava este
nome... O sonho de muitas gerações de cientistas.
Perry regulou o aparelho. Depois, foi
empurrando devagar a chave do lado direito que ativava o raio direcional, e
diminuía
gradativamente a gravidade.
O major Butaan voltou a guardar a arma.
—
Não compreendo como o senhor permite que um bando de espiões nos dê ordens. A
meu ver é uma atitude irresponsável. Terei de informar às autoridades
competentes.
— Fique
à vontade — disse Roon com toda calma. Olhou para a Stardust com os olhos
apertados. — Estou convencido de ter agido corretamente.
Nessa nave há muita coisa de que nem o senhor nem eu
desconfiamos. Para o senhor, tudo não passa de uma ação disfarçada do pessoal
do Ocidente. Mais precisamente, acha que colocaram uma base neste lugar. A
idéia não é má... pode, até, ser verdadeira. Acontece que não sabemos. Talvez o
tal Rhodan nem seja maluco. Às vezes chego a pensar que devem ter descoberto
algo extraordinário na Lua; alguma coisa que lhes confere um poder formidável.
Parou de falar. Havia algo errado.
Subitamente, sentiu-se leve, como se estivesse flutuando; até parecia que tinha bebido.
O pior era que tinha a impressão de ter perdido, também, o equilíbrio.
Sentia-se mais alto, como se estivesse crescendo por cima de sua própria
cabeça.
“Que diabo!”, pensou. “Tomara que o major não perceba nada.”
Butaan estava tão preocupado consigo mesmo que não tinha
tempo para pensar no marechal. Um movimento irrefletido fez com que o chão lhe
fugisse de sob os pés. Devagar, como um balão, foi subindo em direção ao céu
azul. Girava como um campeão de saltos ornamentais em câmara lenta.
Roon não se movera; por isso ainda continuava de pé
sobre as pedras aquecidas do deserto de Gobi. De boca aberta, não tirava os
olhos de Butaan que praguejava e invocava a ajuda dos antepassados. Mas as
maldições não adiantaram nada, nem os antepassados vieram em seu auxílio.
Continuou subindo.
—
Piloto! — berrou o marechal e virou-se abruptamente.
Não devia ter feito uma coisa dessas. O
movimento giratório não foi amortecido; subindo em espiral, Roon seguiu o chefe
do Serviço de Defesa.
O piloto não se conteve mais. Num movimento instintivo,
segurou-se ao encosto do seu assento até que alcançasse a saída estreita. Por
um instante, contemplou de boca aberta e olhos arregalados seus superiores que
subiam para o céu. Depois, empunhou a pistola automática.
O primeiro tiro varreu-o para fora da cabine
do helicóptero,
que foi deslizando lateralmente poucos centímetros acima da superfície do solo.
Sem perceber, abaixou o cano da arma e, como fizera fogo contínuo, o pobre
piloto subiu como um foguete para o céu do deserto. A velocidade foi aumentando
a cada tiro, até que o carregador da arma estivesse vazio. Mas o impulso foi
suficiente para que ele continuasse a subir.
Era um quadro incrível o que se desenrolava
em plena luz do dia. Três homens flutuavam no ar e um helicóptero, em posição
oblíqua, balouçava entre as rochas como se fosse um navio encalhado batido
pelas águas do oceano.
Perry levantou-se e olhou para o rosto
radiante de Bell.
— Então,
o que acha disso?
— É
formidável! Um verdadeiro espetáculo circense. Três bonecos pendurados no ar.
Calculo que estejam com medo. O que faremos agora? Pretende deixá-los morrer de
fome ali no alto?
— Não,
claro que não! Diga-me uma coisa: você sabe pilotar helicópteros, não é?
— Sei,
por quê?
— Depois
falaremos a esse respeito. Por enquanto, faça-os aterrissar suavemente. Isso,
recue a alavanca aos poucos. Acho que metade da gravitação terrestre basta.
Não, receio que caiam com muita velocidade. Regule para um quarto. É bom que
levem algumas manchas roxas de recordação, para que não pensem que tudo não
passou de um sonho. Isso! Muito bem!
O marechal Roon atingiu o solo. Pasmado,
olhou para todos os lados como se estivesse à procura do ser invisível que o erguera.
Butaan aterrissou com mais violência, a uns dez metros de distância do
marechal. Bateu numa pedra e o rosto contorcido de dor e de espanto falava por
si só. Já o piloto, que foi o que mais subiu, foi, por conseguinte, o que caiu
mais rápido. Por sorte, o deslocamento horizontal que ele sofreu, levou-o a
mergulhar no rio de cabeça para baixo. Com
apenas vinte e cinco por cento do seu peso normal, flutuou como uma rolha, o
que contribuiu para aumentar ainda mais a sua perturbação. Já tinha largado a
pistola.
— Marechal
Roon! Está me ouvindo?
Perry gritou essas palavras o mais alto que pôde. O marechal ergueu o
punho e sacudiu-o num gesto ameaçador.
— Isso
vai lhe custar muito caro. O que foi mesmo? O senhor eliminou a gravidade?
— O
marechal até que é sabido! — exclamou Bell alegremente, batendo com a mão na
coxa. Estava se divertindo a valer.
— Se
não retirar imediatamente as tropas, terá outras surpresas. — Perry apontou
para a Stardust. — Temos em nosso arsenal, armas com as quais o senhor não
chega nem a sonhar.
Ele sabia que talvez fosse imprudente dizer
aquilo, mas estava interessado, principalmente, em fazer com que os outros
agissem com cautela. Todavia, o efeito foi exatamente o contrário.
— Quer
dizer que trazem armas? — resmungou Roon, brindando o chefe do Serviço de
Defesa, bem mais jovem que ele, com um olhar que parecia dizer: “veja quanto
vale o seu trabalho e o seu Serviço de Informações! São uma porcaria! Não
fiquei sabendo da existência de uma arma americana capaz de eliminar totalmente
a gravidade”.
— Então,
o que houve? — berrou Bell agitando os braços. — Será que o passeio aéreo lhes
prendeu a língua?
Roon disse alguma coisa ao piloto, que já atingira, são e salvo, a
margem do rio e se juntara a eles. Perry tinha colocado a alavanca do
neutralizador na posição zero. As condições de ponderabilidade eram normais.
— Um
momento! — advertiu Perry, ao ver que o piloto ia se dirigindo para o
helicóptero. — Esse helicóptero vai ficar aqui. Pousou sem permissão em
território da potência recém-criada. Está confiscado.
O rosto do marechal ficou rubro de raiva.
— Calma,
marechal, o senhor passou da idade de se aborrecer!
— O
que estão pensando? — berrou Roon, fora de si. — Vou...
Não chegou a dizer o que pretendia fazer. O
major Butaan cochichou-lhe alguma coisa no ouvido.
— Ainda
terão notícias minhas — terminou abruptamente. Depois voltou-se, fez sinal ao
major e ao piloto, e foi andando em direção às colinas distantes.
Nesse meio tempo, a nuvem de pó havia se aproximado
assustadoramente. Perry suspirou aliviado.
— Então
este foi o nosso primeiro encontro com a Federação Asiática. O segundo deixa-me
menos curioso. Acho que teremos que pôr em funcionamento o anteparo energético.
Seu alcance chega a dois quilômetros. Portanto, o rio, parte da margem do lago
e o helicóptero estão situados no interior do círculo de proteção. É este o
território do novo império: o menor da Terra, porém o mais poderoso.
— O
que você pretende fazer com o helicóptero?
— Que
pergunta! Você sabe muito bem que um belo dia teremos de sair daqui para
arranjar peças sobressalentes e medicamentos. Será que você pretende atravessar
a pé o deserto de Gobi?
O rosto de Bell corou ligeiramente.
— Eu?
Por que justamente eu? Quer que... — Perry acenou tranqüilamente com a cabeça.
— Um
de nós tem que ir, não é? Por que não será você? Afinal, ninguém merece mais
confiança que você.
Bell fez um gesto largo com os braços.
— Bem...
naturalmente! É claro que tem razão. Quando partirei?
— Assim
que o mundo se tiver acalmado.
Com o neutralizador debaixo do braço, Perry entrou na nave.
Bell seguia-o devagar. Com o olhar de um perito examinou ligeiramente o
helicóptero, pousado em posição oblíqua. Depois enfiou o neutralizador no bolso
e fechou a escotilha.
Encontraram Fletcher no centro de controle.
— A
comida está pronta. O que aconteceu?
Perry
explicou em poucas palavras.
— Será
que você acredita que isso dará resultado? Já lhe disse que não entro nessa.
Quero ir para casa. Quero rever minha esposa. Dentro de três meses ela terá um
bebê.
— Até
lá, tudo estará liquidado, Fletcher. Seja razoável! Você me conhece há muito
tempo. Nunca faço nada sem ter um motivo. Vou explicar mais uma vez por que
tivemos de pousar aqui e não em Nevada Fields.
— Você
nunca me convencerá!
— A
paz que está reinando na Terra é ilusória. O menor ensejo bastará para que os
foguetes atômicos sejam disparados em todas as direções, espalhando a
devastação pelo globo terrestre. Você acha que esse estado de coisas deve durar
para sempre? Agora estamos em condições de intervir. O bloco ocidental e a
Federação Asiática estão se defrontando. Desde que a China se tornou a maior
potência atômica, o bloco oriental, dirigido por Moscou, só desempenha um papel
secundário. Somos o fiel da balança, o único poder que se interpõe entre as
duas superpotências. Contamos com os recursos incríveis dos arcônidas. O poder
dos arcônidas concentrado nas mãos de uma só nação significaria o fim de toda
liberdade, mesmo que essa nação fosse os Estados Unidos. Já está na hora de
compreender isso!
— Você
sabe que é um traidor?
Uma expressão de sofrimento desenhou-se nos lábios de
Perry.
— Muita
gente dirá a mesma coisa, porque não me compreende. Mas não sou um traidor.
Acontece apenas que deixei de ser um americano, para transformar-me num
terreno. Será que você compreende ao menos isso?
— Talvez.
Que mais? — Fletcher engolia em seco. — Apesar de tudo você podia ter pousado
em Nevada Fields.
— Não
podia. De qualquer maneira temos de nos
defender, cá
ou lá. E antes lutar contra os asiáticos que enfrentar nosso próprio povo.
Podia ser que me amolecessem, que conseguissem me convencer. É uma coisa que
aqui nunca acontecerá. Sei muito bem o que me espera caso ceda àquela gente.
Crest encarna um poder ilimitado, Fletcher. Está ao seu alcance e, portanto, ao
nosso, impedir a irrupção da guerra. Quando as grandes potências perceberem que
se encontram sob o controle de uma potência mais forte esquecerão o conflito
que lavra entre elas. Talvez até cheguem a um entendimento.
— Isso
não passa de uma utopia.
— Esperemos.
A fábula segundo a qual os discos voadores pousarão na Terra e nos trarão a
paz, deve encerrar um grão de verdade. Crest só se prontificou a ajudar-nos sob
a condição de nos comprometermos a restituir-lhe a saúde e respeitar sua
liberdade pessoal. E não estaríamos respeitando essa liberdade se o
entregássemos a qualquer potência da Terra, fosse qual fosse. Qualquer outra
potência teria motivo para sentir-se ameaçada. Desencadearia a guerra final. Da
forma como as coisas estão, não se atreverão a fazê-lo.
Fletcher fez um movimento cansado com a mão.
— Você
me deixará partir assim que eu desejar?
— Bell
o levará quando sair para buscar os medicamentos e as peças sobressalentes. O
helicóptero está esperando lá fora.
Fletcher afastou-se, pensativo.
Girando uma chave, Perry ativou o campo energético. A Stardust ficou
coberta por uma cúpula invisível de dois quilômetros de altura e igual extensão
para todos os lados. Quem olhasse do alto pensaria que ali no deserto, junto ao
lago, apenas havia uma minúscula nave inutilizada.
Na verdade, porém, naquele lugar estava o germe de um novo
império, cujas fronteiras, nessa altura, não chegavam a treze quilômetros de
extensão. Mais tarde, porém, atingiriam milhares de anos-luz.
O aspecto exterior do general Lesley Pounder
era tão
marcante que dava a qualquer um a idéia de sua resistência e força. De
constituição sólida, seu corpo revelava uma força de vontade e uma energia
inacreditáveis. Todo mundo sabia que não recuava diante de nada, nem mesmo de
Washington ou do Pentágono. Era chefe da Força Espacial dos Estados Unidos e
seus homens adoravam-no e temiam-no ao mesmo tempo. Podiam procurá-lo a
qualquer hora se tivessem algum problema. Raramente dava mostras do seu humor
mordaz. Isso fez com que os maledicentes afirmassem que um dia o general
acabaria devorado pela própria raiva.
Estava no gabinete do quartel-general,
sentado atrás
da enorme escrivaninha, cuja superfície estava quase totalmente tomada pelos
mais variados equipamentos de comunicação. O restante do espaço era ocupado por
pilhas de papéis e pastas. Tinha diante de si um homem de aparência modesta.
Este era o extremo oposto do general. Um círculo ralo de cabelo castanho
circundava sua calva lustrosa. A impressão pacata era reforçada por algumas
mechas de cabelos brancos nas têmporas. Apesar da coroa de cabelo e das
têmporas grisalhas, esse homem tinha um aspecto jovem e inofensivo. Seus olhos
pareciam transmitir uma impressão suave de tolerância.
Todavia, Allan D. Mercant era tudo, menos
suave e tolerante quando se tratava do cumprimento do dever. No desempenho das
suas funções
de chefe do Conselho Internacional de Defesa de todo o bloco ocidental, era o
caçador mais obstinado que se poderia imaginar.
— O
senhor confia muito no major Rhodan e nos seus homens — disse em tom brando,
apontando para o mapa do mundo pendurado na parede. — A Stardust pousou no deserto de Gobi. Ainda é de opinião que foi por
simples acaso?
— A
nave expediu o sinal internacional de perigo antes que seu equipamento
silenciasse. O mecanismo propulsor, certamente, falhou.
— Por
que Rhodan não permitiu que o pouso fosse dirigido pelo controle remoto? Dessa
forma a nave teria atingido a base de Nevada sã e salva. Por que ele mesmo
assumiu o comando? O senhor pode dar alguma explicação?
O general Pounder sacudiu a cabeça, sem saber o que dizer.
— Não
tenho nenhuma explicação para isso. Mas não é por esta razão que eu deva estar
preso, com meu estado-maior, aqui na base. Certamente foi sua a idéia de cercar
toda a base de Nevada Fields.
— É
apenas uma medida de precaução — disse Mercant com um sorriso amável, para
tranqüilizá-lo.
—
Quem conta com o pior nunca sai decepcionado.
— Mas
quem sempre conta com o pior também cria problemas desnecessários — advertiu
Pounder.
—
Ainda que Rhodan tenha pousado no deserto de Gobi por sua livre e espontânea
vontade, ele deve tê-lo feito com uma idéia bem definida.
— Tenho
certeza que é assim! — observou Mercant em tom irônico.
— A
finalidade que tem em vista não deve ser, de forma alguma, dirigida contra nós.
Se o senhor acha que ele pretende entregar a Stardust à Federação Asiática,
está muito enganado.
— Que
outra finalidade poderia ter ele em vista?
— Não
sei — admitiu Pounder. — Mas conheço o major Rhodan muito bem. É digno de toda
a confiança. Trata-se de um elemento que está acima de qualquer suspeita.
— O
homem sempre constitui um fator de incerteza em qualquer equação, general.
Ninguém consegue ver a alma do próximo. A riqueza e o poder, ou melhor, a
esperança de obter essas coisas, pode perturbar até mesmo o espírito mais
íntegro.
O general Pounder pareceu crescer atrás de sua escrivaninha.
— Será
que o senhor quer insinuar que Rhodan ficou louco?
— De
forma alguma, general. Uma pessoa que ambiciona o dinheiro e o poder não pode
ser considerada louca. Conforme o caso poderá ser um traidor...
Pounder saltou da cadeira. Inclinou o enorme
corpo sobre a escrivaninha e colocou o punho cerrado por baixo do nariz do
outro.
— Agora,
chega! Embora seja Allan D. Mercant, não admito que insulte os meus homens.
Rhodan não é um traidor. A Stardust realizou um pouso de emergência. Prove o
contrário! Enquanto não conseguir fazê-lo, fique bem quieto. De resto,
Washington já estabeleceu contato com o governo da Federação Asiática.
— Interessante!
— observou Mercant, e afastou o punho do general com uma elegância tão
displicente que este ficou desarmado. — Posso perguntar qual foi o resultado?
— Até
agora, nada — respondeu Pounder. — Aguardo informações diretas do meu pessoal
em Washington.
— Pois
eu lhe digo qual será o teor dessas informações: o governo da Federação
Asiática lamenta o incidente e afirma ter tomado todas as providências que
estavam a seu alcance para salvar os cosmonautas. Os destroços da Stardust
serão liberados, desde que não tenham sido completamente destruídos. Pouco
depois, receberemos outra nota na qual se dirá que a nave foi totalmente
destruída e que só foram encontrados os cadáveres irreconhecíveis dos
tripulantes. Depois disso, o assunto será envolvido pelo mais absoluto
silêncio; ninguém falará mais nada a respeito. A realidade, porém, será
completamente outra.
— Se
eu fosse dotado de sua fantasia, escreveria romances — disse Pounder fingindo
admiração pelo interlocutor. — Todavia, ouçamos qual será a realidade... na
sua opinião.
— Os
asiáticos desmontarão a Stardust e utilizarão o resultado da viagem em seu
beneficio. Rhodan e os demais tripulantes, que evidentemente estão sãos e
salvos, receberão a recompensa prometida, depois de terem revelado tudo o que
sabem. Talvez a recompensa seja um palacete situado no Tibet, talvez seja um
tiro na cabeça.
Pounder voltou a sentar-se.
— O
senhor não é um homem normal; é uma vítima da sua profissão — diagnosticou
Pounder. — Rhodan sabia muito bem que entre nós teria uma existência tranqüila
e ganharia até dois palacetes, se quisesse. Por outro lado, também não ocorre
nenhum motivo ideológico. Logo, só resta o pouso de emergência. É a minha
opinião. Rhodan entrará, logo que possa, em contato conosco. Aguarde.
Mercant passou a mão pela calva.
— Prefiro
confiar nas informações dos meus agentes. O major Perkins não nos deixará na
mão.
Perkins — até mesmo Pounder conhecia-o de fama — era
um dos melhores agentes de Mercant.
— Não
foi ele quem descobriu o atentado planejado contra o campo de provas da NATOM,
situado na Austrália, e liquidou os cabeças?
— Foi
ele mesmo! Mandei-o a Pequim há poucas horas a fim de cuidar do assunto.
— E
o senhor acredita...
— É
claro que viaja com nome falso. Os documentos são legais e o fato de mantermos
boas relações comerciais com a Federação Asiática facilitará bastante seu
trabalho.
Nesse momento, o ruído do videofone chamou a
atenção de Pounder. Ele girou um botão e a tela iluminou-se. Um rosto surgiu.
— Ligação
de Washington — disse uma voz suave. — É para os senhores Pounder e Mercant.
— Estão
ambos presentes — disse Pounder com a voz ofegante. — Tem certeza de que é com
os dois que a pessoa pretende falar?
— Washington
faz questão disso. Pediram que só completasse a ligação quando as pessoas
solicitadas estivessem no aparelho.
— Pode
ligar. O senhor Mercant está aqui no meu gabinete.
— Um
instante, cavalheiro. Continue com o aparelho ligado.
Pounder olhou para Mercant.
— Quais
são suas relações com Washington? — perguntou espantado.
— São
muitas — disse Mercant com um sorriso ingênuo. — Basta citar um exemplo: é lá
que se encontra o meu superior imediato, o Presidente.
Pounder engoliu em seco, conservando os olhos
fixos na tela de imagem como se de lá pudesse vir algo em seu auxílio.
O rosto da operadora tinha desaparecido. No
seu lugar, surgiu outro: era o chefe do Setor de Informações da Casa Branca.
— É
o general Lesley Pounder?
— Ele
mesmo — disse o general. Mercant inclinou-se ligeiramente para a frente para
que a câmera receptora pudesse captar a sua imagem. — Mercant também está
presente.
— Obrigado.
Acaba de chegar a resposta do governo de Pequim. Seu conteúdo é tão estranho
que resolvemos não tomar qualquer medida antes de ouvir sua opinião. Seu
gravador está ligado?
Pounder comprimiu um botão oculto sob a tampa da
escrivaninha.
— Acabo
de ligar.
— Muito
bem. Ouça. O teor da nossa mensagem a Pequim foi o seguinte:
De Washington para Pequim. Solicitamos autorização imediata para enviar uma comissão que deverá examinar
os destroços da nave espacial Stardust que realizou um pouso forçado.
Acreditamos que não haja qualquer impedimento diplomático já que a nave
destinava-se a investigação científica. Aguardamos sua concordância.
“A resposta, que acabamos de receber, diz o
seguinte:
Autorização recusada. O governo da
Federação Asiática entende que a instalação de uma base ocidental no seu
território constitui uma violação grave dos acordos celebrados. Não se trata do
pouso forçado de um pretenso foguete espacial. A tripulação rechaçou um comando
de resgate e, para isso, usou uma nova arma que subtrai aos homens a ação da
gravidade. A base, que já foi cercada pelas nossas tropas, será destruída, a
não ser que seu governo ordene imediatamente que a mesma nos seja entregue em
boas condições. Concedemos-lhes um prazo de duas horas.
“É este o teor das duas mensagens. Que me diz
a respeito, general Pounder?”
O chefe da Força Espacial estava exultante.
— Quer
dizer que a Stardust conseguiu pousar em boas condições. Ainda bem! Rhodan e os
outros tripulantes estão vivos. Fomos os primeiros a alcançar a Lua e
conseguimos pousar nela. Formidável!
— Realmente
é muito interessante — admitiu o chefe do Setor de Informações de Washington. —
Mas, no momento, o importante é a sua opinião a respeito da mensagem dos
asiáticos. O que significa isso? Uma arma que subtrai aos homens a ação da
gravidade? A Stardust levava alguma coisa parecida com isso a bordo?
— Em
absoluto! Eliminar a força da gravidade? Já foram realizadas pesquisas nesse
sentido, mas não produziram qualquer resultado. Os asiáticos estão blefando.
Querem é fazer desaparecer a Stardust, mais nada.
Mercant interveio.
—
Existe alguma prova de que a nave espacial pousou em boas condições?
— Não
dispomos de qualquer prova — respondeu o
chefe do Setor de Informações.
— Se dispuséssemos, a respectiva observação teria chegado a nós por seu
intermédio, senhor Mercant. Comunicamos a Pequim que infelizmente não
conseguimos estabelecer contato com a Stardust e, por isso mesmo, não podíamos
tomar qualquer providência. Rejeitamos com a maior energia a afirmação
insensata de que a nave seria uma base americana. Ainda não recebemos a
resposta. Aguarde! Pequim está chamando. Continue com o aparelho ligado. Vou
colocá-los na linha para que possam ouvir, também, a mensagem. O rosto do chefe
do Setor de Informações desapareceu. A tela ficou vazia. Mas Pounder e Mercant
ouviram cada palavra que era pronunciada naquela sala situada a mais de três
mil quilômetros de distância. Sem querer, testemunharam o início de uma série
de acontecimentos que conduziriam à extinção da espécie humana, caso não
acontecesse um milagre antes.
— Aqui
é Washington. Pode falar, Pequim.
— Pequim
falando. Os senhores não atenderam às nossas exigências. A base que montaram no
deserto de Gobi também se recusou a permitir uma investigação. Em vista disso,
a divisão comandada pelo marechal Roon recebeu ordens de destruir a base.
Embora devam estar bem informados, queremos dar-lhes um ligeiro relato do que
aconteceu.
“Nossos tanques avançaram.
A dois quilômetros do lugar onde se encontra pousada a Stardust esbarraram num
obstáculo invisível. As buscas que mandamos realizar revelaram que esse
obstáculo cerca a nave por todos os lados, delimitando um território de pouco
mais de doze quilômetros quadrados que, segundo um certo Rhodan, é o território
de uma potência neutra recém-criada. Nossos tanques recuaram e abriram fogo
contra a base. As granadas detonaram muito antes do alvo, como se o anteparo invisível
também continuasse acima da nave, cobrindo-a como uma cúpula protetora. Nossos
consultores científicos são de opinião que a base está coberta por uma cúpula energética. Dessa forma, seria inexpugnável.
Queremos avisá-los de que consideramos a Stardust uma ameaça à paz mundial e
extrairemos as conseqüências cabíveis dos fatos. Pedimos que a base seja
retirada ou entregue às nossas autoridades dentro do prazo de vinte e quatro
horas. De outra forma, consideraremos rompidas as relações diplomáticas entre
Pequim e Washington. Aguardaremos o seu pronunciamento. Não transmitiremos
outras mensagens sobre o assunto. Fim”.
Pounder olhou para Mercant. Sua pele já não tinha a cor sadia de
dez minutos antes. O sorriso suave do chefe do Conselho Internacional de Defesa
também tinha sido substituído por algumas rugas que demonstravam sua
preocupação.
— Um
anteparo energético? — disse, esticando as palavras. — Nem mesmo nós tivemos
conhecimento disso. Meus respeitos, Pounder. Os seus cientistas souberam
guardar segredo.
— Não
diga tolices, Mercant. Também nunca tive conhecimento da existência de um
anteparo energético. Esses asiáticos estão blefando e é só. Há tempos estão
procurando um pretexto para despachar seus foguetes atômicos. Agora,
encontraram um.
Mercant inclinou o corpo.
— O
senhor quer fazer crer que não sabe nada a respeito do anteparo energético que
está cobrindo a Stardust? E quer afirmar, também, que não tem conhecimento do
aparelho que subtrai às pessoas a ação da gravidade?
— Eu
considero isso tolice! Uma coisa dessas não existe! Para mim os asiáticos estão
blefando, já disse!
— Alô!
— A discussão foi interrompida pela voz do chefe do Setor de Informações de
Washington. — Os senhores ouviram, não é?
— É
claro que ouvimos! — confirmou o general Pounder. — Isso é a mais formidável
estupidez que já vi alguém pronunciar até hoje. Julgo conveniente...
— Essa
estupidez pode se transformar numa estupidez pior: a guerra. Temos que impedir
que isso aconteça.. Procure entrar em contato com a Stardust. Mercant lhe
prestará auxilio. E procure descobrir o que vem a ser este antepara energético.
Lehmann deve estar em condições de dar alguma informação. Aguardo sua resposta
antes do término do ultimato formulado pela Federação Asiática.
— Combinado
— resmungou Pounder, que ainda não tinha a menor idéia do que devia fazer. —
Entrarei em contato com o senhor antes que o prazo se encerre.
A tela apagou-se. Mercant soltou um suspiro.
— Se
não recebermos logo notícias do major Perkins estaremos em maus lençóis. Sugiro
que chamemos Lehmann. É possível?
Pounder berrou algumas ordens pelo intercomunicador.
Poucos minutos depois, um homem alto, de meia-idade, entrou no gabinete. Era o
professor Lehmann, diretor-científico do Programa Lunar. Há muito ocupava o
cargo de diretor da Academia de Tecnologia Espacial da Califórnia. Era o maior
especialista no setor. Quando sentia uma disposição toda especial para ser
sincero, o general Pounder era levado a confessar que Lehmann era o pai
espiritual da Stardust.
O professor parecia bastante admirado.
Cumprimentou os dois homens com um aceno de cabeça.
— Querem
falar comigo?
Pounder confirmou com um aceno de cabeça.
— O
senhor já conhece Mercant, portanto não há necessidade de apresentações. Quero
evitar todo e qualquer rodeio. Ouça!
Suas mãos moveram-se sob a tampa da escrivaninha.
Ouviu-se o leve chiado de uma fita em movimento.
— Preste
atenção a esta conversa, Lehmann. Bastante atenção!
À
medida que o professor Lehmann era posto a par dos
acontecimentos, Mercant, com ar distante, realizava mentalmente os movimentos
de suas peças
de xadrez. Se Perkins conseguisse entrar em contato com Rhodan — desde que este
ainda se encontrasse no deserto de Gobi e não tivesse sido transformado em
instrumento dos asiáticos, como Mercant supunha — a trapaça seria descoberta.
Havia várias possibilidades.
Caso a Stardust tivesse pousado
intencionalmente no território da Federação Asiática, Rhodan seria um traidor.
Também era possível que a nave tivesse realizado um pouso de emergência. Nesse
caso, estaria sendo desmontada pelos asiáticos, cuja afirmativa de terem sido
rechaçados representaria, apenas, um simples estratagema. Mercant estava
convencido de que essa afirmativa representava, tão-somente, o preparativo de
um comunicado posterior, segundo o qual as defesas da Stardust teriam sido
rompidas e a nave destruída.
Ainda havia uma terceira possibilidade. Mas
essa era tão
fantástica que quase não podia ser considerada seriamente. Apesar do seu
extraordinário amor aos animais — alguém já o vira tirar uma minhoca do anzol
de um pescador estarrecido, pousando-a cuidadosamente no solo — Mercant
raciocinava com uma frieza tremenda. Sua vida consistia em fatos, dados,
relatórios e normas.
Todavia...
Não chegou a concluir seus pensamentos. A fita
gravada chegara ao fim. O general esticou o queixo e olhou para Lehmann
— Então,
professor? O que me diz? Acha que o major Rhodan é um traidor?
— Um
traidor? Quem teve essa idéia maluca?
Pounder
lançou um olhar significativo em direção a Mercant.
— Foi
só uma pergunta, professor. O que irá importar é sua opinião a respeito do
anteparo energético e do resto.
— A
eliminação da gravidade? Ambas as coisas representam
uma utopia inatingível
com os meios de que dispomos. Os asiáticos inventaram uma fábula bonita que
lhes sirva de pretexto para ficarem com a Stardust. Aposto que amanhã
informarão que a nave não poderá ser entregue por ter sido destruída.
Mercant aprovou com um aceno de cabeça.
— Muito
bem pensado — disse. — Quando me aposentar, sugerirei o senhor como meu
sucessor.
— Agradeço
— retrucou seriamente o professor Lehmann. — Prefiro acompanhar a viagem a
Marte. Não há dúvida de que a Stardust conseguiu pousar em boas condições. Se
não fosse assim, a manobra de despistamento seria inútil. Se soubéssemos as
causas, tudo estaria esclarecido; Para um bom serviço secreto isso não devia
ser nenhum problema.
O golpe, desferido como se fosse por acaso,
atingiu o alvo. O rosto de Mercant ficou vermelho. A expressão branda desapareceu
subitamente. Seus olhos adquiriram uma expressão dura. Levantou-se sem fazer
caso dos gracejos do general.
— O
senhor ainda se surpreenderá com a eficiência do nosso serviço secreto — disse
a Lehmann, enquanto se dirigia para a porta. — General, faça o favor de me
avisar assim que haja noticias de Washington. Até logo, cavalheiros.
Fechou ruidosamente a porta. O professor
Lehmann lançou
um olhar de espanto para Pounder.
— O
que será que houve com ele? Por que anda tão sensível?
— O
senhor o atingiu no seu orgulho profissional. — Pounder sorriu; parecia muito
satisfeito. — Bem feito! Quem manda tratar qualquer pessoa que não seja um dos
seus espiões como um homem de categoria inferior? Bem, agora que ninguém nos
incomoda mais, diga-me, com toda sinceridade, professor, qual é sua opinião a
respeito de tudo isso?
Lehmann inclinou-se para a frente. Pounder
continuou:
—
Acho que estamos de acordo em que o major Rhodan está acima de qualquer
suspeita. O que aconteceu no deserto de Gobi?
O professor Lehmann sorriu. Seu olhar
perdia-se através
da janela, contemplando o horizonte. Sem olhar para o general, comentou:
— Talvez
seja conveniente, meu caro Pounder, reformular a parte geográfica da pergunta.
O correto é: o que aconteceu na Lua?
Pounder arregalou os olhos.
Depois de ter desembarcado do Stratoliner em Pequim, o major Perkins
dirigiu-se a um hotel de primeira categoria. Poucos minutos depois, um dos
agentes do seu país forneceu-lhe o endereço de uma firma que trabalhava para o
governo. Telefonou ao procurador e combinou um encontro.
Nos documentos do agente, constava o nome
Alfons Hochheimer, e a profissão de engenheiro de minas. Segundo os dados do
passaporte, encontrava-se na Federação Asiática há mais de dez anos e já
trabalhara várias vezes para empresas estatais de mineração.
Na sala de recepção da empresa, decorada em
estilo ultramoderno, um chinês trajado à européia recebeu-o com um sorriso
imperscrutável.
— É
o senhor Hochheimer, não? Meu nome é Yen-Fu. Posso lhe ser útil em alguma
coisa?
— Tive
conhecimento de que sua firma participa da exploração de regiões economicamente
pouco interessantes — disse Perkins, enquanto apertava a mão que o outro lhe
estendia. — Já tive oportunidade de pesquisar trechos extensos do deserto de
Gobi, a serviço de outras empresas. Conheço um lugar em que há possibilidade de
se encontrar urânio, desde que as pesquisas alcancem uma profundidade
suficiente.
O sorriso de Yen-Fu tornou-se ainda mais
intenso.
— Urânio
no deserto de Gobi? O senhor deve estar enganado! Já enviamos várias expedições
para lá, mas nenhuma delas teve êxito.
A essa altura, também no rosto de Perkins
via-se um sorriso misterioso.
— Acontece
que os participantes das suas expedições não possuíam os instrumentos de busca
de que disponho, senhor Yen-Fu. Já ouviu falar na sonda de Spielmann?
O chinês sacudiu a cabeça.
— Não.
Para ser sincero, nunca ouvi falar. Perkins não se admirou com a resposta.
Acabara de inventar o nome.
— É
lamentável, senhor Yen-Fu, muito lamentável. Spielmann é um dos cientistas mais
conceituados do mundo ocidental. As grandes descobertas de urânio no continente
americano foram devidas ao seu invento. Disponho de um dos seus modelos mais
recentes.
Apesar do terno sorriso, o rosto do chinês passou a revelar uma
certa dose de desconfiança.
— Não
é americano?
— Não,
sou alemão. Mas encontro-me na Federação Asiática há mais de dez anos. Aqui
estão os meus documentos. Espero que os mesmos o convençam da sinceridade da
minha proposta.
O procurador examinou cuidadosamente aqueles
documentos. Falsificados com perfeição extrema. Não encontrou nada de anormal, e
devolveu-os a Perkins.
— Sabe
onde se poderia encontrar urânio no deserto?
Perkins confirmou com um aceno de cabeça.
— Existe
quantidade suficiente para abastecer vinte usinas por cem anos. É claro que o
material também pode servir para outra coisa — disse com um sorriso
significativo.
—
Queira esperar.
Perkins esperou. Mas não o deixaram esperar por
muito tempo. Falou com o diretor da firma. Depois
com um funcionário
categorizado do governo. Finalmente falou com o piloto do avião que devia
levá-lo juntamente com os membros da comissão à região em que se encontravam as
pretensas jazidas de urânio.
— O
senhor traz consigo essa sonda? — perguntou Yen-Fu curioso. — Ela permite a
leitura imediata dos resultados?
Perkins lembrou-se da caixinha metálica bem concebida. No seu
interior havia uma bateria e alguns fios, e do lado de fora várias escalas e
botões. Confirmou com um aceno de cabeça.
— É
claro que sim. Não viria a sua presença sem o equipamento necessário. Quando
partimos?
— Daqui
a uma hora, se estiver de acordo. Ainda estamos aguardando a confirmação
definitiva da repartição competente.
“Tomara que isso acabe bem!”, pensou Perkins.
Mas dificilmente conseguiriam descobrir sua verdadeira identidade, pois seus
documentos eram melhores que os de qualquer chinês. Todavia...
Perkins tomou um refrigerante no café situado do outro lado da
rua. Deu algumas moedas a um mendigo, que lhe queixou suas mágoas com voz rouca
e estridente, afirmando que tinha filhos menores para sustentar. O homem fez
várias mesuras e, subitamente, entremeou seus agradecimentos com algumas palavras
bem mais sugestivas.
— Não
conhece mais os amigos, meu velho? Por que será que Mercant resolveu enviar
justamente você? O representante do governo que viajará no avião é um dos
nossos. Trate-o bem. Oh, pai dos justos, exemplo celestial de misericórdia
humana, receba mil agradecimentos pelo seu gesto bondoso. Meus filhos pedirão
pelo senhor junto aos antepassados. Que os deuses da fecundação abençoem o
senhor, que dispensou a um indigno como eu a graça de poder beijar seus pés...
Perkins piscou para o mendigo. Depois
virou-se com um gesto de desprezo. Atirou uma moeda sobre a mesa e saiu do café.
O avião era um pequeno jato particular. Além do
piloto viajavam um representante do governo, um engenheiro e Perkins. O luxo da
pequena cabine indicava que o aparelho se destinava a finalidades especiais.
Era dotado de deslizadores que permitiam o pouso em terreno irregular e mesmo
na água, pois os flutuadores esguios impediriam seu afundamento.
As turbinas uivaram, mas o ruído foi se tornando
praticamente imperceptível à medida que o avião ganhava altitude.
Abaixo deles, Pequim foi desaparecendo. O
aparelho tomou o rumo oeste. As planícies férteis foram ficando para trás.
Surgiram as primeiras montanhas e, depois, o deserto cinzento e tórrido.
O representante do governo inclinou-se para
frente e bateu no ombro do engenheiro que estava sentado perto de Perkins.
— Onde
fica a região, Lan-Yu?
— A
leste de Sutschou, nas proximidades do lago salgado de Goshun. Mais ou menos no
lugar em que teria descido a nave espacial americana.
— São
boatos — disse o engenheiro. Virou-se e sorriu. — O senhor não acha?
— É
claro que são boatos.
Com cerca de hora e meia de vôo, já tinham percorrido
cerca de 1.300 quilômetros. Foi quando o piloto abriu a portinha minúscula que
dava para a cabine e disse:
— A
Diretoria de Controle de Vôo de Pequim acaba de dar ordem para regressar
imediatamente. É proibido sobrevoar a área que fica situada entre Ordos,
Schan-Si, a serra de Nan-Schan e Ning-Hsia. O lago de Goshun fica exatamente no
centro dessa área. Não informaram o motivo da proibição.
Lan-Yu lançou um olhar em direção ao representante do
governo.
— O
que significa isso? Pois o senhor obteve autorização do governo para
acompanhar-nos neste vôo. E devia saber que...
— Prossiga
e desligue o equipamento de rádio — ordenou o representante do governo. — Não
siga as instruções.
— Tenho
de deixar o receptor ligado por causa das comunicações sobre o tempo. Além
disso sou obrigado a transmitir nossa posição de cinco em cinco minutos.
O representante do governo olhou para
Perkins. Este deu um aceno de cabeça quase imperceptível e colocou a mão no
bolso do casaco.
— Desligue
o equipamento — voltou a ordenar o comissário. — Peço-lhe encarecidamente que
daqui por diante se atenha estritamente às minhas instruções. Se não o fizer,
as conseqüências correrão por sua conta. Não se esqueça que represento o
governo. Desça junto ao lago de Goshun. Quanto tempo ainda levará para chegar
lá?
O piloto hesitou por um instante. Depois lançou um olhar para o painel
de instrumentos: — Dez minutos — respondeu.
— Daqui
a oito minutos deveremos iniciar a manobra para aterrissagem. Até lá nada de
mudanças de rumo. Entendido?
— A
responsabilidade será sua — disse o piloto, enquanto confirmava com um
movimento de cabeça, e desapareceu.
O engenheiro Lan-Yu acompanhara o diálogo sem dizer uma
palavra. O sorriso desaparecera do seu rosto. Seus olhos oblíquos
estreitaram-se ainda mais. Percebeu que Perkins, ou melhor, Alfons Hochheimer
ainda estava com a mão no bolso.
— Por
que não segue as instruções do governo? — perguntou, falando devagar. — Não
vamos criar problemas? A proibição deve estar relacionada com a nave espacial
pousada na área.
— Não
tenho a menor dúvida — disse o representante do governo. — Mas não se preocupe.
Sei perfeitamente o que estou fazendo.
— Para
mim nada importa desde que encontremos o urânio — disse Lan-Yu. Passou os olhos
pela impressionante caixinha metálica que se encontrava no
assento vago junto a Perkins. O aspecto da mesma era tão impressionante que convencera
o chefe da firma. — Só faço votos de que realmente o encontremos.
Dali a cinco minutos o piloto voltou a
aparecer.
— Temos
um avião da Força Aérea à nossa frente. Está dando ordem para regressarmos.
— Como
é que o senhor vai saber disso, se não mantém qualquer comunicação com eles?
— Tiros
de advertência! — disse o piloto em tom seco. Aparentemente ele não conhecia o
medo.
— Ligue
o aparelho de rádio. Irei até aí.
O representante do governo lançou um olhar significativo
para Perkins. Depois, foi à carlinga apertada, fechando a porta atrás de si.
Perkins tirou a pistola automática do bolso e apontou-a
para Lan-Yu.
— Por
acaso tem uma arma?
O engenheiro quase chegou a engasgar de
susto. Arregalou tanto os olhos que eles quase ficaram redondos. Sacudiu a cabeça, enquanto fitava o
orifício negro do cano da arma.
— O
que deseja que eu faça? — balbuciou.
— Quero
que fique bem quietinho, com a boca fechada. Se fizer de conta que nem existe,
poderá sair são e salvo desta aventura. Senão...
O silêncio significativo deixou a alternativa em
aberto.
— Mas,
o senhor sozinho não vai conseguir...
— Não
estou só. E agora não diga mais uma única palavra. Devemos aterrissar daqui a
pouco.
Na verdade, o avião começou a descer. O
avião militar se afastara, depois de trocadas algumas mensagens radiofônicas.
Atravessaram a barreira aérea da Federação Asiática e passaram bem baixo por
cima de algumas formações de tanques que recuavam. Subitamente, avistaram a
Stardust bem à frente, junto à desembocadura do Morin-Gol.
A nave espacial parecia solitária e abandonada.
Não se via qualquer sinal de vida perto dela.
Apenas, bem alto, um pontinho minúsculo destacava-se contra o céu azul.
Descrevia círculos como se fosse uma ave de rapina que, a qualquer momento,
precipitar-se-ia sobre sua vítima.
Nem Perkins nem o outro agente que se
encontrava em sua companhia sabiam que esse ponto minúsculo era um bombardeiro
da Federação Asiática levando uma bomba atômica que seria lançada contra a
nave.
— Onde
vamos aterrissar? — perguntou o piloto. O representante do governo, que era um
dos membros mais competentes do serviço de espionagem ocidental,
apontou para o lado.
—Ali
no deserto, perto da nave espacial. Faça o avião parar a menos de cem metros da
Stardust. Entendido?
O piloto confirmou com um movimento de cabeça. Descreveu uma curva bem
ampla e preparou-se para aterrissar. O aparelho foi descendo sobre o deserto. A
altitude não ultrapassava algumas centenas de metros. A distância que os
separava do ponto em que se encontrava a nave foi diminuindo vertiginosamente.
Faltavam poucos quilômetros...
Nesse meio tempo, a bomba lançada pelo outro avião foi
caindo. O pontinho minúsculo parou de descrever círculos e foi se afastando em
linha reta. Portanto, havia dois objetos que se aproximavam da Stardust.
Perkins foi à carlinga, depois de ter amarrado Lan-Yu na
sua poltrona. O avião deslizou pelo solo pedregoso em velocidade vertiginosa.
Quando se encontrava a pouco mais de dois quilômetros da Stardust, um segundo
sol surgiu repentinamente dois mil metros acima da nave. O cogumelo atômico
chamejante, que se ergueu a pouquíssima distância e cujos gases incandescentes
deslizaram pela cúpula invisível, cegou seis pares de olhos.
Ainda chegaram a sentir o choque produzido
pelo embate contra o anteparo energético.
Depois, não houve mais nada...
— Ei,
Perry! Pounder está no aparelho. O homem está muito nervoso.
Rhodan acenou a cabeça para Crest, com quem
estivera conversando.
— Com
licença, Crest. Pretendo esgotar todas as possibilidades.
No caso, a expressão “está no aparelho” era a
menos adequada. A comunicação visual através do satélite era perfeita. O rosto
de Pounder na tela era tão nítido como se estivesse olhando por uma janela. Os
asiáticos não interferiam mais nas transmissões, o que era sinal de que não
mais sabiam o que fazer.
Bell inclinou-se ligeiramente e fez um gesto
em direção
à tela.
— Permita
que o apresente: é o general.
Perry
empurrou-o para o lado.
— General
Pounder, comunico nosso retorno da expedição lunar. A tripulação está bem. A Stardust
não está em condições de decolar em virtude de defeitos mecânicos. Missão
cumprida. Os resultados das pesquisas científicas serão encaminhados ao
professor Lehmann.
O general respirava com dificuldade.
— Rhodan,
o senhor enlouqueceu? Quer fazer o favor de explicar o motivo que o levou a
pousar no deserto de Gobi? O mecanismo de controle remoto falhou? Podia ao
menos ter tentado descer no oceano.
— O
pouso neste local foi proposital.
— O
quê? — o rosto de Pounder adquiriu uma tonalidade vermelha bem viva. — O que
está dizendo? Foi proposital? Major Rhodan, o senhor não vai me dizer que...
— Não
vou dizer coisa alguma. Pelo menos, não o que o senhor está pensando.
Procurarei explicar...
— Não
há nada a explicar — berrou Pounder a plenos pulmões. — O senhor vai destruir
imediatamente a Stardust por meio da carga explosiva e entregar-se às Forças da
Federação Asiática. Entendeu?
Um brilho gélido surgiu nos olhos de Rhodan.
— Entendi,
general. Mas não cumprirei suas ordens.
— Não
vai cumprir a ordem? — Pounder oferecia um quadro assustador. O vermelho do seu
rosto tornou-se mais intenso. Bell, instintivamente, abaixou-se como se temesse
que a cabeça que aparecia na tela fosse explodir. — Major Rhodan, ordeno-lhe
que...
— General,
permita-me dizê-lo que já não sou mais major, e, por isso, nego-me a receber
ordens do senhor. Como vê, removi os distintivos do meu uniforme. Se permitir,
começarei a explicar.
O rosto do professor Lehmann tinha surgido
perto de Pounder. Nos seus olhos havia um brilho de curiosidade.
— Rhodan,
será que nas crateras da Lua existem vestígios de atmosfera e até mesmo restos
de...
— Silêncio!
— berrou Pounder e empurrou o cientista para o lado. — Fale, Rhodan! E procure
ser convincente, pois suas palavras decidirão se dentro de dez horas teremos
guerra ou não. A Federação Asiática está convencida de que a Stardust não passa
de uma base americana colocada intencionalmente em seu território. Se não for
abandonada até amanhã, as relações diplomáticas estarão rompidas. Acho
desnecessário salientar quais as conseqüências que advirão deste fato, caso ele
seja concretizado.
— Então
as coisas já chegaram a este ponto? — murmurou Perry assustado. — Nesse caso,
não temos um segundo a perder. Preste atenção, general. Pousamos na Lua,
conforme previsto, e descobrimos os restos de uma civilização extraterrena. Não
posso dar-lhe detalhes de tudo o que encontramos, mas algumas indicações serão suficientes. Para tranqüilizar o
professor Lehmann, diga-lhe que a Lua nunca foi habitada, mas, há muito tempo, posou
lá uma nave exploradora tripulada por membros de uma civilização interestelar.
Esta nave ainda está intacta e em seu bojo existe um arsenal que daria para
destruir não apenas a Terra, mas todo o sistema solar. Raios mortíferos e anteparos
energéticos, neutralizadores da gravidade e campos anti-neutrônicos capazes de
impedir toda e qualquer explosão atômica são apenas alguns exemplos. Além
disso, existem armas manuais, cujos efeitos o senhor nem seria capaz de
imaginar. General, o senhor há de compreender que eu não estava disposto a
colocar esse poder tremendo nas mãos de qualquer das nações da Terra.
De um golpe, Pounder recuperou o sangue-frio.
— Acontece
que pousou no território da Federação Asiática. Há outras pessoas que estão
escutando nossa palestra. Logo, todo mundo saberá o que o senhor descobriu na
Lua. Expedições serão enviadas para lá e haverá uma corrida frenética que
decidirá quem há de dispor do poder final. O senhor devia ter ficado calado.
— Quero
que todo o mundo saiba — disse Rhodan, sacudindo a cabeça. — Além do mais,
ninguém pousará na Lua, a não ser que eu queira. Não se preocupe, general, pois
os asiáticos não conseguirão estas armas. Os russos e os americanos também não.
Só eu disponho delas. E cuidarei para que ninguém inicie uma guerra que os
destruiria a todos.
— O
senhor?
Estas palavras foram proferidas com tamanho
desprezo que Rhodan ficou rubro de raiva. Recuou um passo e fitou o general com
olhos frios.
— Eu,
sim! O senhor já devia ter compreendido que a política falhou. Há séculos os
governos tentam evitar a guerra quente. Uma ameaça segue-se a outra, uma
conferência a outra. A culpa não é apenas do bloco oriental e da Federação
Asiática, mas também do bloco ocidental. Ninguém quer ceder;
todos continuam a se armar. Os foguetes com cargas atômicas estão estacionados
em todos os pontos do globo. Basta comprimir um botão para dispará-los, o
dispositivo automático de que são dotados os conduzirá ao alvo. Todavia, antes
que possam atingi-lo, as armas de retaliação serão acionadas do lado oposto. Os
povos de ambos os lados do mundo praticamente deixarão de existir no mesmo
instante. Há decênios defrontamo-nos com essa visão macabra. Ninguém conseguiu
conjurar o perigo. Até hoje apenas o equilíbrio de forças tem impedido a
guerra. Mas, ai de nós se um dos lados se tornar mais forte. Ver-se-ia obrigado
a destruir o outro lado para viver em paz. Nós faríamos isso, da mesma maneira
que os asiáticos. Compreende por que nenhum dos blocos deve pôr as mãos na
Stardust, que tem a bordo algumas das armas extraterrenas?
Ouviu-se a respiração pesada do general.
— O
senhor poderia ter prestado um serviço inestimável ao seu país se...
— Se
tivesse levado as armas para Nevada Fields? Está enganado, general. A Federação
Asiática e o bloco oriental sentir-se-iam tão ameaçados que se lançariam a uma
guerra de extermínio contra o bloco ocidental. Não poderiam agir de outra
forma. Seria o fim da nossa civilização. De qualquer maneira, agirei de acordo
com um plano que tracei, quer o senhor aprove, quer não.
— Que
plano é esse?
— Formarei
uma terceira potência, que será neutra, ficando eqüidistante dos blocos que se
defrontam sobre a Terra. Estamos em condições de transformar qualquer foguete
atômico que seja disparado em um projétil inofensivo. Qualquer bomba atômica
estalará no ar sem produzir o menor efeito, como se fosse fogos de artifícios.
Repelirei qualquer ataque dirigido contra a Stardust parta de onde partir.
Vou...
Perry Rhodan parou de falar. Atrás dele, ouviu-se um ruído. Virou-se. Bell segurava o braço de Fletcher que
entrara na sala de rádio.
— Não
caia na conversa dele, general! — gritou Fletcher. — Ficou doido. Os arcônidas
com suas idéias decadentes fizeram com que enlouquecesse. Opus-me à
aterrissagem neste local. Mas ele me ameaçou com a pistola. É um amotinado.
Perry fez um sinal a Bell e deixou que
Fletcher terminasse. Finalmente, aproximou-se dele e colocou-lhe a mão sobre o ombro.
— Escute,
Fletcher. O general pode ouvir o que tenho a dizer. Talvez agisse da mesma
forma se fosse você. Acontece que não sou. Você é livre para deixar a Stardust
assim que o deseje. Não prendo ninguém. Mas quero que, antes de ir embora,
confirme perante o general Pounder que na Lua encontramos armas que nos
permitem controlar o mundo. Não lhe diga mais nada, só isso.
Fletcher hesitou. Fitou os olhos ameaçadores de Bell. O técnico
tinha na mão o bastão prateado do irradiador psíquico. Perry lançou-lhe um
olhar quase gentil. Na tela, o rosto de Pounder espreitava a cena.
Confirmou com um aceno de cabeça.
— É
verdade, general. Se Rhodan quiser, pode destruir o mundo.
Abaixou a cabeça, virou-se e saiu da sala. Rhodan,
suspirando aliviado, dirigiu-se ao general.
— General,
além do senhor, os homens que tomam as decisões no bloco oriental e na
Federação Asiática ouvirão as minhas palavras. Quero acrescentar apenas o
seguinte: a extensão territorial da terceira potência é muito limitada. Não
deixe que este fato o engane. Cumpram os meus desejos. E não se atrevam a levar
ao extremo as suspeitas que nutrem um contra o outro. Acho que, a esta altura,
já devem ter compreendido que a Stardust não é uma base americana. Por outro
lado, não pousou aqui para cair nas mãos da Federação Asiática. E o bloco
oriental terá de abandonar as esperanças de colher os despojos do conflito entre os dois outros blocos. Os
senhores poderão
se comunicar comigo a qualquer momento nessa faixa, e também usarei a mesma
quando tiver que entrar em contato com os senhores. Lamento o ocorrido,
general, mas acho que um dia o senhor me compreenderá. Por ora só posso pedir
que me desculpe.
Pounder fitou os olhos de Perry Rhodan,
depois acenou com a cabeça.
—
Parei o possível, Rhodan. E espero em Deus que Mercant concorde. O senhor o
conhece!
Um sorriso estranho passou pelos lábios de Rhodan. Ele
compreendeu a advertência, mas esta já não o assustava mais. Mercant passara a
ser apenas um homem.
E Perry Rhodan não mais temia os homens.
De Washington para Pequim:
Conseguimos estabelecer contato com a
Stardust. Comandante Rhodan afirma estar de posse de armas incríveis que teriam sido
levadas à Lua por uma potência extraterrena. Já não temos a menor influência
sobre os acontecimentos. Solicitamos seu pronunciamento.
De Pequim para Washington:
Acompanhamos palestra visualizada entre
General Pounder e Rhodan. Explicações inverossímeis — muito fantásticas.
Ultimato fica de pé. Prazo se esgotará daqui a sete horas.
De Moscou para Washington:
Participamos da opinião do governo da Federação
Asiática. Também consideramos a presença de uma base americana no deserto de
Gobi como uma ameaça à paz mundial. Mas, no caso de um conflito armado, Moscou
se conservará neutra.
De Moscou para Pequim:
Concordamos com a opinião do governo da Federação
Asiática. Também consideramos a presença de uma base americana no deserto de
Gobi uma ameaça à paz mundial.
De Washington para Pequim e Moscou:
Voltamos a afirmar que o governo de
Washington não
tem conhecimento de uma base americana no deserto de Gobi. Ordenamos à
tripulação da nave Stardust que se rendesse. Sugerimos um encontro dos dirigentes
das nações interessadas.
A última nota americana não obteve resposta. Às
sete horas tão preciosas começaram a correr. Na Ásia, as torres das rampas de
disparo começaram a girar em direção ao Oriente e ao Ocidente. Os monstros de
aço emitiram reflexos ameaçadores sob a luz dos refletores. Homens corriam de
um lado para outro. Depois, fez-se o silêncio.
O quadro repetiu-se nas áreas de defesa do bloco
ocidental.
No bloco oriental, as torres das rampas de
disparo foram giradas de tal forma que abrangiam todos os quadrantes do globo.
Nas três partes do mundo, um homem sentado bem
abaixo do nível do solo, contemplava um conjunto de painéis de controle e
instrumentos eletrônicos. Comunicava-se com os postos de comando através de
telas de imagem. Sua mão descansava sobre a mesa junto a um botão vermelho. Um
botão que parecia falar-lhe de uma destruição total e terrível para todo o
gênero humano; uma hecatombe que varreria todos os traços de uma civilização.
Em dois outros lugares, sobre duas outras
mesas, dois outros homens esperavam, suas mãos perto dos botões que dariam início ao
caos.
Crest estava sentado na cama, recostado na
parede forrada de almofadas. Manoli aplicara uma injeção em Fletcher que estava,
agora, mergulhado em um sono profundo. Bell encontrava-se na central em
companhia do médico, acompanhando as transmissões radiofônicas. De meia em meia
hora informava Rhodan do que acontecia no mundo.
Aos poucos, Crest compreendeu as conseqüências que sua presença na
Terra desencadeara entre os homens, embora estes nem tivessem conhecimento
dele. Com um ar pensativo e preocupado, disse:
— Rhodan,
não compreendo como seu povo consegue resistir a esta tensão psicológica. Pelo
que você diz há decênios que seu mundo vive sob esta atmosfera de suspense. Basta
que alguém aperte um botão para que a destruição seja lançada sobre a Terra.
Por que não houve, ainda, quem se erguesse contra este estado de coisas? Por
que não se formou um governo comum que reunisse todos os arsenais para usá-los
na defesa contra o possível ataque de um agressor extraterreno?
Rhodan suspirou.
— Não
há nenhuma resposta válida à sua pergunta, Crest. Se houvesse, não viveríamos
constantemente entre a vida e a morte. Talvez nenhuma resposta seja possível
enquanto a humanidade estiver convencida de constituir a única força deste
sistema solar. Só tememos algo que seja mais poderoso que nós. Os dois blocos
mais poderosos da Terra se equivalem em força e poder. O terceiro bloco
desempenha um papel secundário. Todo mundo sabe que no caso da irrupção de uma
guerra, os segundos serão decisivos. Mas todo mundo sabe, também, que aquele
que for surpreendido pelo ataque, terá tempo ainda para disparar os foguetes de
retaliação antes que o país mergulhe nos escombros e nas cinzas. A conseqüência
inevitável será a morte de ambos os adversários. Só o conhecimento
deste fato tem evitado a catástrofe.
— Começo
a compreender o problema. Quando minha civilização ainda era jovem,
defrontou-se com as mesmas dificuldades. Viveram mais de duzentos anos sob o medo
constante do aniquilamento total. Foi quando uma população de insetos
guerreiros vinda dos confins da Via Láctea nos descobriu e desfechou um ataque
contra nós. Em menos de meia hora, os governos se uniram e derrotaram o inimigo
comum. Como o perigo continuasse, a aliança foi mantida. Foi assim que nos
tornamos um povo unido e iniciamos a ascensão.
Perry Rhodan concordou com um aceno de cabeça. Seus olhos reluziam.
— É
a primeira vez que ouço essa história, mas, apesar disso, ela não constitui
novidade para mim. É a única solução lógica dos problemas que surgem quando um
grupo de seres inteligentes descobre as armas definitivas. A esta altura já
deve compreender por que tenho que agir da forma como estou agindo. Não é nada
agradável ser apontado como traidor pelos amigos e superiores hierárquicos. Mas
se me deixar levar pelos sentimentos, o mundo estará perdido. Um dos blocos
poderia se apossar das armas e destruiria o outro. Todavia, antes que
conseguisse fazê-lo, o outro poderia desencadear a ação suicida. Não, Crest,
vejo perfeitamente o caminho que devo percorrer. Seu problema é a resposta às
minhas indagações. Você quer recuperar a saúde. Vou ajudá-lo. Precisa de
sobressalentes eletrônicos. Vou consegui-los. Sua nave poderá decolar em busca
do planeta da vida eterna. É possível que acabe se esquecendo de nós. Mas
aproveitarei a sua curta presença aqui para trazer a paz à Terra, a paz pela
força. De outra forma não é possível. Só o medo de uma potência ainda maior
fará com que as potências do nosso planeta recuperem a razão. Acredito que
poderei contar com a sua ajuda.
— Farei
o que estiver ao meu alcance. Mas, por enquanto, não parece que sua atuação
esteja sendo coroada de êxito. Falta pouco para expirar o prazo do
ultimato. E depois?
— Thora
terá de intervir. O antepara energético e o neutralizador da gravidade não
foram suficientes para convencer os asiáticos de que se defrontam com
formidáveis inventos extraterrenos. E o meu pessoal do ocidente acredita que
tudo não passa de um blefe. Portanto, é necessário que aconteça alguma coisa
que deixe patente para todos os interessados o poderio imenso da terceira
potência. Sua nave está estacionada na Lua. O que pode ser feito de lá para que
toda a humanidade fique ciente do perigo que paira sobre ela? Não seria
possível erguer o rochedo de Gibraltar e fazer com que o mesmo caia no mar a
mil quilômetros de distância? Ou transferir a Estátua da Liberdade de Nova
Iorque para Pequim? Quem sabe se poderia paralisar todas as comunicações
radiofônicas do mundo?
— Poderíamos
fazer tudo isso e, provavelmente, seria conveniente dar uma demonstração bem
visível aos homens. Pense no assunto e avise-me da sua decisão. Thora fará
aquilo que eu lhe pedir. De minha parte sugiro a utilização de um raio
energético. Escolha uma região não muito afastada, mas despovoada. Previna os
homens. Avise-os de que dentro de duas horas, isto é, três horas antes do
término do ultimato, queimará as areias do deserto, produzindo um funil de
cinqüenta quilômetros de diâmetro. Previna-os que se não agirem de acordo com
os seus desejos, o raio será dirigido contra zonas habitadas. Acho que isso
bastará para convencê-los.
Um sorriso se esboçou no rosto de Rhodan. A
insensibilidade aparente, porém, ocultava uma preocupação sincera com o futuro
da espécie humana. Sabia que não havia nenhum argumento que pudesse incutir bom
senso na mente dos guardiões das ideologias. Só um choque seria capaz de tanto.
Estava disposto a aplicar a terapia de choque no mundo.
— Acredito
que sim — respondeu. — Acha que Thora está disposta a nos ajudar?
— É
obrigada a ajudar, quer queira, quer não. O seu
orgulho diante de uma raça
inferior é tamanho que a faz esquecer de que também já atravessamos este
estágio: os estágios de evolução de D a A. Talvez tenha sido a época em que
nossa civilização foi mais produtiva. Éramos jovens e ativos. Amávamos o
progresso e a novidade. Hoje tudo mudou. Somos degenerados e presunçosos. Vou
usar de franqueza, Rhodan. Às vezes, quando penso na nossa semelhança exterior,
chego a ter idéias bem estranhas. Se combinássemos o espírito de sua raça com o
da nossa, se uníssemos a sua vitalidade ao nosso saber, poderíamos dominar o
Universo...
Os olhos de Perry Rhodan perderam o brilho
duro. Vagaram numa distância
ignota, que se media por eternidades. Sem que percebesse, seus punhos se
cerraram, os dedos voltaram a se distender. A imagem do futuro desenrolou-se
diante do seu espírito como uma visão instantânea.
Os homens e os arcônidas — uma só raça. A
iniciativa e o espírito de aventura aliados a um saber vetusto e a uma
tecnologia inimaginável. Naves espaciais que se deslocavam a velocidade
superior à da luz, tripuladas por homens e mulheres ávidos de ação, penetravam
nos recantos mais profundos da Via Láctea, descobriam novos mundos, fundavam
colônias e impérios. O comércio interestelar proporcionava um bem-estar
indescritível. Surgia um novo império galáctico. Surgia uma nova raça...
Talvez Crest imaginasse o que se passava na
mente de Rhodan. Um sorriso de sabedoria aflorou-lhe aos lábios.
—
Ainda nos encontramos no começo, Perry Rhodan. Você representa o gênero humano;
eu, os arcônidas. Você precisa do nosso auxílio; nós, do seu. É um pacto,
podemos chamá-lo assim, nascido da necessidade comum. Mas acredito que,
futuramente, cheguemos a uma união em prol do interesse mútuo, fundada na
razão. Até é possível que a Terra seja o planeta da vida que estamos
procurando, pois o rejuvenescimento traz consigo uma vida mais longa.
— Antes de mais nada,
devemos preparar o início, Crest. Depois poderemos falar sobre o resto. O mundo
que pode trazer-lhe a saúde está prestes a soçobrar. O ódio mesquinho e a
desconfiança egoísta, a falta de respeito pelas opiniões alheias, a obstinação
com que são mantidos certos princípios préestabelecidos, foi isso que nos
conduziu à situação atual. Antigamente o temor a Deus obrigava os homens a
serem honestos e tolerantes. Hoje, esses resultados só podem ser alcançados
através do medo incutido por ameaças palpáveis. Portanto, peça a Thora que
dirija o raio energético para a África do Norte, a cerca de cinco graus de
longitude leste, na altura do Trópico de Câncer. O raio deverá atingir a
vertente norte da serra de Ahaggar. Expedirei um aviso para que a região seja
evacuada imediatamente, embora, pelo que sei, esteja praticamente desabitada.
— A demonstração não deixará
de produzir efeito — prometeu Crest. — Convém salientar, no seu aviso, que se
trata de uma das operações mais inofensivas do nosso arsenal.
A estação receptora da
patrulha chefiada pelo tenente Durbas estava captando notícias alarmantes,
vindas de todas as partes do mundo. Subitamente as transmissões em todas as
faixas foram superadas por uma emissora desconhecida. O radio-telegrafista
procurou, em vão, controlar o seu aparelho, mas, mesmo com o mínimo de volume,
a voz de Perry Rhodan era ouvida num raio de duzentos metros.
“Aqui fala Perry Rhodan,
representante do terceiro poder da Terra. Uma vez que o mundo se prepara para a
guerra que trará o fim da espécie humana, não quero deixar de formular uma
última advertência. Por meio dela provarei que a nação ou Estado que disparar o
primeiro foguete atômico será destruído imediatamente. Dentro de cento e quinze
minutos surgirá uma cratera de cinqüenta quilômetros de diâmetro no deserto do
Saara, ao norte da cordilheira de Ahaggar. O fenômeno terá origem num raio
energético expedido da Lua. Pede-se a todas as pessoas que se encontrem na
região indicada que se afastem o mais possível do centro do alvo. Uma vez
realizada a demonstração, as potências mundiais disporão de três horas para
reconsiderar as suas posições. É tudo.”
O radiotelegrafista cravou
os olhos no receptor; estava atônito. O tenente Durbas, que se levantara e
chegara mais perto, fez a mesma coisa.
— O que foi isso? —
perguntou depois de algum tempo.
— Perry Rhodan, aquele
cosmonauta que pousou na Ásia. Dizem que está colaborando com a Federação
Asiática. Também se fala a respeito de novas armas que ele teria trazido da
Lua.
Os homens da patrulha do
deserto reuniram-se. Estavam indecisos. O veículo estava parado à sombra de um
oásis. O motorista olhava para leste.
— A cordilheira fica logo
ali. Será que nos encontramos a uma distância segura?
O tenente Durbas mostrou-se
contrariado.
— Até parece que você está
acreditando nessa bobagem, Hassan! Um raio energético vindo da Lua! Será que
não podiam inventar outra coisa?
O radiotelegrafista sacudiu
a cabeça, estava pensativo.
— Deve haver algo de verdade
nisso, tenente. Captei algumas noticias. Dizem que esse Rhodan cobriu sua nave
com uma cúpula feita exclusivamente de energia. Nem mesmo uma bomba atômica
poderia atingi-la.
— São contos de fada. Não se
pode acreditar em tudo o que diz o nosso pessoal, o que dizer quando se trata
dos amarelos? Fundir uma cratera no deserto! Que tolice! O que diz o Forte
Hussein?
— Estabelecerei contato
imediatamente.
O Forte Hussein recomendou
que a patrulha seguisse a advertência.
— Está bem — gemeu. Durbas,
lançando um olhar saudoso para o bosque sombrio. — Vamos recuar para o oeste.
Esse calhambeque faz quarenta quilômetros por hora. Acho que isso é suficiente.
Quinze minutos antes da hora
marcada para a demonstração, estavam abrigados atrás de uma elevação do solo,
lançando olhares impacientes em direção a leste. Admiraram-se dos numerosos
aviões que, subitamente, começaram a circular bem acima deles. Próximo ao local
em que se encontravam, pousou um helicóptero da Central de Informações Leste
com seus aparelhos de registro. Bem perto dali, uma pacata câmera de televisão
da Federação Asiática focalizava a região demarcada por Rhodan. Dos americanos,
nada se via. Talvez estivessem mais ao norte.
Faltavam dez minutos.
Um círculo bem amplo
formara-se em torno da área ameaçada. Os presentes não acreditavam muito
naquilo que talvez fosse acontecer dali a pouco, mas ninguém queria perder a chance
de assistir a um espetáculo como o que se prometia. Tratava-se, na verdade, de
um espetáculo desencadeado por um poder estranho.
Passaram-se cinco minutos.
Durbas tocou no braço do
cabo Abbas.
— Dentro de uma hora ficará
escuro. Tomara que esse Rhodan não demore muito. Aliás, recebemos ordem para
regressar imediatamente ao Forte. Deve estar acontecendo alguma coisa.
— Será que é a guerra?
— Como vou saber? Pensando
bem, desde 1945 encontramo-nos numa espécie de guerra.
O tenente olhou para o
relógio.
— Está na hora — murmurou e
olhou para o leste. No mesmo instante, porém, fechou os olhos. As demais
pessoas que se encontravam por ali fizeram a mesma coisa.
Foram ofuscados por uma
extensa cortina de luz que se precipitou do céu azul e atingiu a areia do
deserto a cerca de trinta quilômetros dos observadores. Continuava visível
mesmo através das pálpebras fechadas. A origem do raio perdia-se no céu, onde
ia se estreitando progressivamente. Mais exatamente, localizava-se no ponto em
que se situava a Lua, invisível a essa hora.
Uma onda de calor passou por
cima dos homens assustados. As câmeras de televisão, porém, continuaram a
zumbir, transmitindo o fenômeno diretamente para todos os quadrantes do mundo.
Um raio incandescente brilhou nas telas de imagens dos centros de informações.
Um dos aviões, que se aproximou demais da zona de perigo, foi colhido por um
imenso turbilhão que o arrastou para o interior do raio energético. No mesmo
instante, foi transformado numa gigantesca gota de metal fundido que se evaporou
depois de alguns instantes de queda.
O raio pousou sobre o
deserto por apenas um minuto. Depois, apagou-se.
Parecia que, era noite. O
Sol, que ainda há pouco emitia um brilho tão intenso, agora parecia uma estrela
agonizante, embora estivesse bem acima do horizonte. Sua luz era pálida e
avermelhada. Podia-se contemplá-lo com os olhos bem abertos.
No lugar em que o raio tinha
tocado o solo, já não havia deserto. Uma cratera abria-se entre a areia e as
rochas. Não se via o fundo. As bordas estavam incandescentes. Bem embaixo,
percebia-se um brilho avermelhado. Vapores erguiam-se das profundezas do
inferno recém-criado.
Só de avião a cratera podia
ser abrangida com o olhar. Era gigantesca. Formava um círculo perfeito, como se
tivesse sido traçada a compasso.
Durante três horas o mundo
conteve a respiração. O momento em que expirava o prazo do ultimato chegou — e
passou.
Três botões vermelhos
deixaram de ser tocados...
O tenente Klein chegou a
Pequim por um caminho mais longo que o habitual. De acordo com as ordens que
recebera, entrou em contato com o número dois, que lhe forneceu novas
instruções. A missão a ser cumprida parecia impossível, mas tinha que ser
tentada. Perry Rhodan representava um perigo para todo o mundo. Quem
conseguisse remover esse perigo conquistaria fama imorredoura, pouco importava
a nação a que pertencesse. A missão exigia a mobilização de todas as energias
da pessoa encarregada de cumpri-la, além de uma coragem extraordinária.
No entanto, havia uma
circunstância que a fazia parecer mais fácil. O próprio Mercant fornecera a
Klein uma indicação de suma importância.
— Preste atenção, Klein!
Rhodan não poderá ser eliminado com os meios usuais. Só existe uma
possibilidade: a traição. Não se preocupe com os aspectos morais, pois Rhodan
também nos traiu. Você terá que romper o anteparo energético. Como fazê-lo é
problema seu. Há outro detalhe: você não está só. Há agentes do bloco oriental,
e também da Federação Asiática que estão lidando com o mesmo problema. Não é
impossível que a tarefa comum acabe por conduzi-los a certo tipo de
entendimento. Enquanto a Stardust não tiver sido destruída, os agentes da
Federação Asiática e de Moscou serão seus colegas. Boa sorte!
Klein precisaria de sorte e,
até aquele momento, ela não o deixara em falta. Em Kalgan, a 120 quilômetros a
noroeste de Pequim, onde procurou conseguir um automóvel através de dinheiro e
promessas, teve a sua atenção despertada por um chinês, que já tinha visto três
vezes no mesmo dia. O rapaz observava-o; não tirava os olhos dele.
Comprou um carro capaz de
trafegar em terreno difícil e providenciou mantimentos e outras provisões, uma
barraca com os respectivos equipamentos e tudo o mais de que precisava para uma
pequena expedição. As estradas encontravam-se em boas condições, mas estavam
sendo vigiadas.
Mandou pintar no veículo, em
letras enormes, umas palavras que o colocariam a salvo de qualquer suspeita:
Viagem Experimental Realizada sob o Patrocínio do Exército. Seus documentos
diziam que era engenheiro. Devia verificar se o veiculo se prestava ao
transporte de tropas pelo deserto e pelas montanhas.
Ao sair da cidade, procurou
em vão pelo chinês suspeito. Provavelmente desistira do seu intento. Por que e
quais as suas intenções, Klein não sabia.
“Essa gente tem um interesse
todo especial por estrangeiros”, murmurou enquanto se desviava de um veiculo
que vinha em sentido contrário. “Mas não pareço tão rico assim. O que é que se
poderia roubar de um engenheiro no campo?”
Pelo fim da tarde, passou
pela cidade de Kwai-Hwa, indo pela estrada que seguia junto à Grande Muralha.
Não podia saber que naquele mesmo instante o chefe do Serviço de Defesa da
Federação Asiática, Mao Tsen, encontrava-se na longínqua Pequim, sentado diante
de um receptor que lhe fornecia a localização exata do pretenso veículo
experimental. O chefe do Serviço Secreto, major Butaan, estava sentado ao seu
lado, sorrindo.
— O tenente Li Shai-tung é
um dos meus melhores agentes — disse Butaan cheio de orgulho, como se aquilo
representasse uma realização exclusivamente sua. — Logo descobriu esse
americano e não o perdeu de vista. Estou curioso para ver se é correta a sua
teoria, segundo a qual os outros cooperariam conosco se realmente a Stardust
não fosse uma base americana, o que, a esta altura, parece bastante provável.
Se o bloco ocidental dispusesse de uma arma como o raio vindo da Lua, já
teríamos deixado de existir. Li foi informado de que a Stardust deve chegar às
nossas mãos intacta?
— Foi devidamente instruído
— confirmou Mao Tsen com um gesto comedido. Estava prestando atenção à voz fina
vinda do alto-falante: — Ah, o americano resolveu prosseguir viagem. Daqui a
pouco deverá chegar ao Hwang-Ho. É possível, até, que atinja a localidade de
Pau-tou, a não ser que prefira passar a noite num acampamento ao ar livre.
Klein não sabia que, no
quartel-general do Serviço Secreto da Federação Asiática, sua rota estava sendo
traçada, com toda a precisão, em um mapa. Era como se ele transmitisse
periodicamente sua posição.
Só quando parasse, ele
ficaria sabendo que tinha sido acompanhado.
A lua minguante já se
aproximava do horizonte sob o qual o sol se escondera. À sua esquerda,
brilhavam as águas de um rio que deslizava lentamente. A estrada era ladeada
por moitas de arbustos que se estendiam até a margem do rio.
Klein encontrou um espaço
livre e dirigiu o carro para lá. Prosseguiu mais alguns metros até chegar a um
lugar que lhe pareceu apropriado. O carro ficou abrigado entre a vegetação e as
rochas, junto ao rio.
O tenente espreguiçou-se e
saiu do carro. Fazia calor mas, assim mesmo, uma fogueira não seria má. Não
armaria a barraca e um café quentinho lhe faria bem. Depois, estenderia algumas
cobertas na parte do veículo destinada à carga e dormiria lá.
— Vamos descansar? — perguntou
uma voz atrás dele num inglês horrível. — Calma! Não faça nenhum movimento
precipitado, meu amigo. Estou segurando uma arma. Vire-se devagar, bem devagar.
Klein acabara de colocar
alguns pedaços de lenha bem seca sobre as chamas que pareciam ávidas por se
alimentarem. A luz produzida pela fogueira permitia-lhe reconhecer o rosto do
seu interlocutor. Naturalmente era aquele rapaz obstinado, que já lhe
despertara a atenção em Kalgan. Encontrara uma oportunidade para se esconder no
interior do veículo.
Tudo isso não seria tão mau
assim se o sujeito não lhe apontasse uma pesada pistola automática apoiada em
um dos braços. Klein olhou para o orifício ameaçador do cano daquela arma
perigosa, cujos projéteis tinham carga explosiva suficiente para danificar um
carro blindado de tamanho médio.
— O que deseja? — perguntou
Klein. — Para um vagabundo, seu equipamento é muito moderno. Tome cuidado, meu
velho, pois este veículo é do governo.
— De que governo? — disse Li
Shai-tung com um sorriso misterioso. — Do americano? Vamos, mostre logo suas cartas.
Qual é a sua missão? Talvez possamos chegar a um acordo.
Klein apontou para o fogo.
— Vamos sentar?
— Está armado?
— Está interessado em um
acordo ou prefere falar comigo de pistola na mão?
Li hesitou.
— Estou em situação de
vantagem. Não teria dúvidas em renunciar à mesma se soubesse que você está
sendo sincero. Quero que responda a uma pergunta minha. Só depois disso poderei
aceitar o seu convite e confiar em você. Qual é a sua missão? Quem é o seu
chefe? Conheço as respostas através das pessoas que me enviaram para cá. Se
coincidirem com as suas...
Foi descendo do carro, mas
continuou com a arma apontada para Klein. Este refletiu por um instante.
Lembrou-se do que Mercant lhe havia dito e, subitamente percebeu que ele estava
com razão: era necessário que colaborassem um com o outro.
A evolução dos
acontecimentos já começava a delinear a trilha sonhada por Perry Rhodan. Era
ainda muito tênue, muito insignificante, começava bem por baixo. Um dia, porém,
abrangeria a Terra se os agentes não conseguissem destruir a Stardust.
— Meu chefe é Allan D.
Mercant, chefe do Conselho Internacional de Defesa do Ocidente. Minha missão
consiste em destruir a nave espacial Stardust. Isso basta?
Li concordou com um
movimento de cabeça depois, abaixou a arma. Por uns momentos, continuou a
segurá-la, indeciso; acabou atirando-a na parte traseira do veículo. Foi até a
fogueira e apertou a mão de Klein, sentando-se em seguida.
O tenente engoliu em seco. O
gesto representou uma reação destinada a disfarçar a admiração que nutria pelo
outro. Sentou, também. Ao pé dos dois, o fogo espalhou um calor agradável. A
água começou a ferver na chaleira.
— A sua missão só difere da
minha em um ponto — admitiu o chinês depois de uma pausa prolongada. — Você
recebeu ordens para destruir a Stardust, ao passo que eu devo evitar isso de
qualquer maneira. Acredito, porém, que, oportunamente, ainda chegaremos a um
acordo. No momento, nossos objetivos são idênticos: impedir que Perry Rhodan
possa impor sua vontade ao mundo. Será que interpretei corretamente as suas
intenções?
Klein confirmou com um gesto
de cabeça.
— Nesse caso — continuou Li
— poderemos colaborar um com o outro, até que Rhodan tenha sido posto fora de
combate... Aquilo que virá depois ainda está muito longe. Vamos fazer um
acordo. Queira formular sua proposta.
O tenente Klein nem chegou a
compreender o grotesco da situação. Dois agentes que trabalhavam para potências
inimigas uniam-se para eliminar o elemento mais poderoso. Ainda há poucos dias,
sua rapidez no manejo da arma decidiria qual dos dois conseguiria sobreviver.
Já agora tudo estava mudado. O temor infundido pela misteriosa terceira
referência transformara os inimigos em amigos que se mantinham numa atitude de
expectativa.
— Você me garante que não me
entregará às autoridades do seu país, nem mesmo depois que tivermos atingido
nosso objetivo. Em compensação, oportunamente, quando chegarmos ao local em que
se encontra a Stardust, revelo-lhe como pretendo fazer para atravessar a cúpula
energética. Está de acordo?
Li apertou a mão do americano.
Cinco dias depois, deixaram
a rodovia na altura de Hang-Shou, e avançaram pelo deserto de Gobi, em direção
ao norte. Deixaram para trás as montanhas e o rio. Dali em diante, só
encontraram alguns lagos-salgados e pequenos regatos. A vegetação foi se
tornando cada vez mais escassa. A paisagem refletia as características do
deserto.
A cinqüenta quilômetros do
destino, foram detidos por uma unidade blindada do exército asiático. Foi Li
quem salvou a situação. Uma mensagem radiofônica expedida para Pequim produziu
um verdadeiro milagre. Os dois agentes foram liberados com muitos pedidos de
desculpas. O comandante da unidade, em meio a inúmeras mesuras, desejou êxito
completo ao senhor Klein e seu amigo chinês.
A situação foi se tornando
cada vez mais estranha. Até parecia nunca ter havido qualquer conflito entre o
Oriente e o Ocidente. O temor do inimigo comum revelou-se capaz de cimentar uma
unidade sólida até mesmo entre ideologias que se opunham ferozmente.
Ainda por duas vezes tiveram
que atravessar o cordão de isolamento estabelecido pelo exército. Klein começou
a indagar de si para si por que estava dirigindo aquele caminhão. Podia ter
pedido que o levassem num helicóptero do exército; e era indiferente que o
aparelho pertencesse à Federação Asiática, ou aos países do bloco ocidental.
Mas lembrou-se de que tinha que enganar Rhodan. Se é que este fosse se deixar
enganar com facilidade...
O capitão Reginald Bell
desligou o motor. Os dois reatores zumbiram mais algum tempo. Depois pararam.
— Então? — perguntou Perry.
— Tudo em ordem?
— Está! E o tanque está
quase cheio. Não será difícil cobrir os dois mil quilômetros até Hong Kong,
desde que eu possa reabastecer no caminho. A próxima parada será em Bornéo.
Depois, terei que alcançar a Austrália.
Fletcher saltou nervosamente
de um pé para o outro. Nos seus olhos havia um brilho fraco. Já esquecera a
Stardust, que se encontrava a apenas cem metros de distância. Só via o
helicóptero que ia levá-lo de volta à civilização. Chegado lá, encontraria uma
possibilidade de retornar aos Estados Unidos, onde a esposa o esperava.
Não sabia como tinha chegado
ali. Só se lembrava do seu nome e do da cidade em que sua esposa morava. O
hipnobloco, que Crest aplicara em torno do seu centro de memória com o auxílio
do psico-irradiador, apagara quase todos os fatos anteriores. Ninguém
conseguiria arrancar nada de Fletcher: era um homem que não tinha mais passado.
Rhodan o prevenira, mas
Fletcher limitara-se a abanar a cabeça.
— Serei o único responsável
pelo que acontecer; você não terá nada com isso. Quero voltar para junto de
minha esposa. É só. E, agora, leve-me para junto de Crest.
Meia hora depois estava tudo
terminado. Bell saltou para o helicóptero e acenou para Rhodan.
— Confie em mim, meu velho.
Deixarei Fletcher em Hong Kong ou em Darwin. Depois, arranjarei as peças
sobressalentes e o soro anti-leucêmico. Dentro de uma semana estarei de volta.
Lembranças para Eric e Crest.
— Cuidado para que não o
derrubem!
— Este helicóptero é do
Exército. Além disso, levo comigo o neutralizador de gravidade, cujo alcance
chega a dez quilômetros. Isso sem falar no irradiador manual. As outras
invenções também serão úteis. Em troca delas, conseguiria continentes inteiros.
Pense apenas nos pequenos geradores de energia. São do tamanho de uma caixa de
charutos, mas fornecem, por um século, ininterruptamente, duzentos watts.
Entre, Fletcher.
Enquanto o astrônomo se
espremia por entre as caixas, na parte traseira do helicóptero, Bell se
despedia do amigo.
— Desligue o anteparo
energético no momento exato em que eu atingir altitude suficiente. Alguns
segundos devem bastar. Depois volte a fechar a nossa quitanda. Daqui a uma
semana estarei de volta. Não se preocupe. Até a volta!
Perry retornou à sala de
comando da Stardust. Quando o helicóptero ganhou altitude e chegou perto do
teto da cúpula energética invisível, ele empurrou uma chave durante cinco
segundos. Bell já estava do lado de fora.
O helicóptero tomou rumo
sul. Deslocava-se a baixa velocidade. Passou por algumas formações de carros blindados
e, pouco depois, chegou à vertente oriental das montanhas de Richthofen.
Tomando o rumo do sudoeste, prosseguiu a uma altitude de mil e quinhentos
metros.
No fim da tarde, foi atacado
sem qualquer aviso por um avião de caça.
Não sabia como explicar o
incidente. Talvez alguém o tivesse visto decolar. Mas, se fosse assim, não o
teriam deixado em paz por tanto tempo.
O pequeno aparelho surgiu de
repente. Vinha em sentido contrário e ligeiramente para o lado. Estava girando,
utilizando todo o seu poder de fogo. Os projéteis chamejantes passavam muito à
esquerda, antes que o piloto pudesse corrigir a pontaria, já havia passado pelo
helicóptero. Descreveu uma curva ampla e atacou pelo flanco.
Bell já conseguira dominar a
surpresa. Deixou que o helicóptero seguisse o mesmo rumo, regulou o irradiador
manual para meia intensidade e, depois, dirigiu-o sobre o avião que se
aproximava a uma velocidade vertiginosa.
“Está na hora de mostrar o
que você sabe fazer”, disse para si mesmo. Com os nervos tensos, acrescentou: “Suba.
Ganhe altitude e suspenda o fogo!”.
No mesmo instante, as
línguas de fogo que saíam do bojo e do bordo de ataque das asas do avião
desapareceram. O caça empreendeu uma subida quase vertical.
Bell abaixou o irradiador.
Lembrou-se, muito tarde, de que era necessário transmitir outra ordem ao
piloto. A distância era de três, e, logo, quatro quilômetros. Não havia como
vencê-la.
O caça continuou sua subida
louca. E continuava a subir quando já fora do alcance visual de Bell. O
combustível se esgotava. O piloto, semi-asfixiado, continuava a cumprir a ordem
recebida. Subiu até que todo o combustível fosse consumido.
Por um segundo, o aparelho
pareceu imóvel, depois, começou a cair. Foi descendo em parafuso até
espatifar-se contra os rochedos de Tsingling Chan.
Bell sentiu-se abalado.
Começava a compreender o poderio imenso que representava esse irradiador de
aspecto tão inofensivo se utilizado de forma conveniente. Devia ter dado uma
ordem diferente ao piloto. Mas como tomar uma decisão em uma fração de segundo?
Aterrissou num pequeno
aeroporto militar perto de Chun-king. Ainda faltavam mil quilômetros para Hong
Kong.
No início, ninguém lhe deu
atenção. Mas, como ficasse parado e não descesse do aparelho, um jipe
aproximou-se. Dele, saiu um oficial de alta patente e acercou-se do
helicóptero.
— Por que não comunicou a
sua chegada à torre do controle? — indagou. Quando, porém, viu o rosto de Bell,
que jamais poderia ser confundido com o de um chinês, acrescentou: — Quem é o
senhor?
O mínimo que Bell podia
fazer era rir. Tinham lhe dito que, aqui, se sorria constantemente.
— Não entendo uma única
palavra do que o senhor está dizendo — respondeu em inglês. Depois, dirigindo o
irradiador sobre o oficial, prosseguiu: — Sou o marechal Roon. Preciso de
combustível. Providencie. E rápido, por favor!
O motorista do jipe também
fora incluído no tratamento. O oficial prestou-lhe continência e entrou no jipe
que se afastou em alta velocidade.
Bell sorriu e esperou.
Virou-se pára Fletcher que acompanhava tudo sem o menor interesse. Mantinha os
olhos fechados.
— Coitado! — murmurou Bell.
Dali a poucos minutos,
chegou um caminhão-tanque e parou perto do helicóptero. Já ia escurecendo.
Ninguém se preocupou com os dois homens sentados na cabine. Uma vez cheio o
tanque e colocados alguns galões extras em tanques de reserva situados no
compartimento de carga, o chefe do grupo comunicou o término da operação.
Bell deu partida no motor e
cumprimentou com um gesto condescendente. Ao subir para o céu vermelho, ainda
chegou a ver os olhos arregalados dos chineses. Mais tarde, o verdadeiro
marechal Roon jamais conseguiria explicar como o capitão Finlai, que o conhecia
pessoalmente, jurou perante a Corte Marcial tê-lo visto em pessoa na Base Aérea
de Chun-king. Ao que se sabia, ninguém podia estar em dois lugares ao mesmo
tempo.
Ou será que podia?...
Era estranho.
Foi justamente num lugar
situado a dez quilômetros da Stardust que uma firma da Mongólia, autorizada
pelo governo de Pequim, iniciou a montagem das instalações destinadas à
extração de sal das águas do lago de Goshun.
Os tratores abriam sulcos
enormes nas margens arenosas do lago e as dragas removiam a terra. Formaram-se
bacias imensas que se encheram com a água do lago até que essas atingissem um
metro de altura, não mais. Alcançado esse ponto, fechavam-se as comportas. O
sol evaporaria a água e só restaria o sal. Fileiras imensas de caminhões
estavam prontas para transportar o produto até a Mongólia, que pertencia à zona
de influência de Moscou.
Klein e Li viram-se obrigados
a guardar um período de descanso para não chamarem a atenção. Por mais
estranhos que lhes parecessem os grupos de trabalhadores que desenvolviam uma
atividade intensa, não havia motivo para que não estivessem ali. Oficialmente,
a luta contra a Stardust havia sido suspensa. As bombas atômicas detonadas no
lugar eram livres de radiação e, por isso, não deixavam qualquer efeito nocivo
no terreno. As tropas haviam sido retiradas das áreas adjacentes à nave
espacial.
O engenheiro-chefe da firma,
Ilia Rawenkow, cumprimentou os visitantes inesperados com extraordinária
cordialidade. Falava chinês fluentemente.
— O que os traz a esta
região solitária? — indagou, depois de tê-los convidado para uma xícara de chá.
— Já pensávamos que levaríamos meses sem ver qualquer outro ser vivo. Permitam
que faça a apresentação: este é Peter Kosnow, procurador da empresa.
Os dois russos causaram boa
impressão. Mas havia alguma coisa nos seus olhos — ou melhor, atrás de seus
olhos — que recomendava cautela.
— Estamos testando um veículo
de transporte para o exército — respondeu Li em tom bastante convincente. —
Acho que esta região se preta bem para isso. O engenheiro Klein está me
acompanhando. Vive na Federação Asiática há quinze anos.
Rawenkow e Kosnow olharam-se
rapidamente.
— Que interessante! — um
sorriso cortês aflorou aos lábios de Rawenkow. — Não acha estranho que tantas
vezes europeus e até americanos venham aos nossos países e cooperem conosco? O
fato é que não há fronteiras quando se trata de interesses econômicos.
Li estreitou os olhos.
— É verdade que se trata
apenas de vantagens econômicas? — disse, espaçando bem as palavras.
O russo — percebia-se a dez quilômetros
que tanto ele quanto Kosnow não eram mongóis — olhou involuntariamente na
direção em que se encontrava a nave espacial, oculta por uma elevação.
— O que quer dizer com isso?
— disse, para ganhar tempo.
A expressão no rosto de Li
não se alterou. Seguiu o olhar do russo e disse em tom casual:
— Se não me engano, ali não
existe nenhuma região salineira. Por que será que só agora tiveram a idéia de
iniciar a utilização econômica do lago de Goshun?
— Afinal, onde está querendo
chegar? — disse Rawenkow em tom impaciente. Mal conseguia disfarçar o
nervosismo.
— À união dos antigos
adversários — disse Li com um sorriso e sorveu calmamente o chá de sua xícara.
— Será que você quer me convencer que está aqui por puro acaso? Logo ali, a
menos de dez quilômetros de distância, encontra-se a Stardust. Ela vale mais
que todos os lagos salgados do mundo. E desde quando existem russos que
trabalham para a firma da Mongólia? Você não vai me dizer que é russo, não é
Rawenkow?
Kosnow fez um movimento
imprudente. Seu rosto não parecia muito inteligente quando viu a pistola de
Klein apontada diretamente para o seu rosto.
— Que é isso? Para que tanta
precipitação? — censurou Li com a voz suave. — Somos bons amigos, Kosnow, faça
o favor de esquecer a pistola que traz no bolso. Klein guarde a sua. Seria
ridículo se não pudéssemos nos unir em face de um inimigo comum. Não estou com
a razão, Rawenkow?
O russo acenou levemente a
cabeça.
— Como conseguiu descobrir
nossa missão tão depressa? Até hoje todo mundo viu em nós apenas os
representantes da firma da Mongólia.
— Talvez porque sejamos
colegas — disse Li amistosamente. — O nome do seu chefe não é Ivan Martinovitch
Kosselow?
Os dois russos ficaram de
boca aberta. Confirmaram com um aceno de cabeça.
— Pois então? — prosseguiu
Li. — Quer dizer que estamos de acordo! Posso fazer a apresentação definitiva?
Este é o tenente Klein, do Conselho Internacional de Defesa do Ocidente. Eu sou
o tenente Li Shai-tung. Finalmente os representantes das três grandes potências
estão sentados em torno da mesma mesa, embora se trate de uma mesa tosca e
cambaleante no deserto de Gobi. Falem com franqueza. Existe qualquer motivo que
justifique uma inimizade entre nós?
Rawenkow abanou a cabeça:
— Você tem razão, Li. Acho
que devíamos concluir um armistício. Os nossos objetivos são os mesmos.
Klein mordeu o lábio
inferior, pensativo. Depois, disse:
— O que acontecerá quando
tivermos alcançado o nosso objetivo?
Ninguém soube dar uma
resposta.
Port Darwin fica na costa
ocidental da Terra de Arnhem. É o porto mais importante da grande baía de
Cambridge, situada no norte da Austrália.
Tanto ideológica quanto
economicamente a Austrália pertencia ao bloco ocidental. Mantinha una
representante permanente em Washington. Mas grandes setores da população
empenhavam-se pela neutralidade do continente e pela sua autonomia militar.
Apesar disso, Bell sabia que
não estava pousando em solo amigo, quando seu helicóptero desceu sobre o platô
arenoso situado perto da costa. Já ia escurecendo. A pouca distância, brilhavam
as luzes da cidade.
— Fletcher, você vai à
cidade comigo? Pode pernoitar num hotel. Amanhã dou-lhe o dinheiro. Depois
disso, você poderá pegar um avião e voltar para casa.
— Ótimo Bell! Você sabe que
tenho de voltar para junto de minha esposa. Deverá ter um bebe dentro de três
meses. Talvez antes.
— Sei, sim — disse Bell com
um aceno de cabeça. Essa história do nenê já o estava irritando. Estava
começando a compreender por que corriam tantas piadas sobre o tema. Se todos os
futuros pais fazem um drama desses...
— Esqueça as preocupações.
Temos que fazer uma caminhada de meia hora. Tomara que ninguém nos tenha visto
pousar aqui.
Sem qualquer incidente,
conseguiu entregar seu protegido no hotel e, depois de ter dado a volta à
cidade para sondar o terreno, voltou ao helicóptero. Um policial, tratado com o
psico-irradiador, dera-lhe, com a maior solicitude, todas as informações que
desejava.
O Dr. Frank M. Haggard
residia na parte leste da cidade, num edifício anexo aos hospitais por ele
construídos. Era lá que ficava o laboratório no qual, dois anos antes,
realizara uma descoberta sensacional: o soro anti-leucêmico.
Seguindo as indicações do
policial, Bell foi acompanhando, a baixa altitude, a rodovia até atingir o
entroncamento com uma estrada lateral. Seguiu esta última e não tardou a
avistar os contornos dos imponentes prédios que se destacavam contra o mar.
Pousou na clareira de um
bosque a pequena distância dali. Colocou o irradiador no bolso, pegou um dos
geradores permanentes de energia e pôs-se a caminho.
Frank Haggard ainda estava
acordado. Lançou um olhar de espanto para o visitante retardatário, ergueu as
sobrancelhas num gesto de recriminação e convidou-o a entrar. Ficou curioso ao
ver a caixinha que Bell colocou sobre a mesa com muito cuidado.
— Posso lhe ser útil em
alguma coisa? — perguntou o médico.
Bell examinou-o mais
detidamente. Haggard era um tipo atlético, de cabelos castanho-escuros e olhos
azuis. Devia ter cerca de quarenta e cinco anos. Havia em seu rosto um traço de
bondade, capaz de inspirar confiança especialmente para quem precisasse de
auxílio.
— Na verdade, pode ser-me
bastante útil — começou Bell, sem saber como explicar-se. — Meu nome é Reginald
Bell, não sei se já o ouviu antes.
— Reside em Darwin? —
indagou o médico, inclinando-se para frente.
Bell disfarçou o seu
desapontamento.
— Não. Venho da Mongólia.
Haggard voltou a recostar-se
na cadeira.
— Ah! — fez.
Não disse mais nada. Afinal,
a Mongólia distava cerca de cinco mil quilômetros dali. E esse tipo estranho
entrou-lhe pela casa sem mais aquela às dez horas da noite dizendo ter vindo da
Mongólia. Devia ser algum louco à solta. Convinha ter cuidado.
— Isso mesmo. Mais
exatamente, venho do deserto de Gobi.
— Era só o que faltava —
foram as palavras que Haggard deixou escapar. Todavia, conteve-se logo e
perguntou, com tom amistoso: — Veio a pé?
— Só os últimos quinhentos
metros — admitiu Bell. Que diabo! Como devia fazer para que o cientista
compreendesse o que desejava dele?
— Preciso do seu soro anti-leucêmico
para curar um doente. Apenas... bem, o pagamento é que causa alguma
preocupação. É verdade que uma coisa que talvez lhe interesse...
— Pode falar com franqueza —
recomendou Haggard e lançou um olhar de esguelha para o telefone. — Mas por que
não esperou até amanhã de manhã?
— Infelizmente não foi
possível, doutor. Cada minuto me é precioso. Está interessado numa fonte de
energia bem barata?
— Como?
Bell segurou a caixinha no
colo. Desembrulhou-a e voltou a pô-la sobre a mesa. Ali estava: seu aspecto era
modesto e inocente. Só algumas tomadas revelavam que dali se podia extrair
energia elétrica.
— Este aparelho fornece até duzentos
quilowatts. Não precisa ser recarregado. Dá para cem anos utilizando ininterruptamente
a capacidade máxima. Compreendeu? Deixe de olhar o telefone! Não sou nenhum
maluco! Não lhe farei nada.
Haggard já não entendia o
que se passava. Seu instinto lhe dizia que estava lidando com um homem normal.
Estavam lhe oferecendo uma maravilha técnica que contrariava todas as leis da
física.
— Quem é o senhor? —
perguntou.
Bell suspirou.
— Está bem! Direi a verdade.
Embora esta pareça mais estranha que a mais louca das fábulas. Certamente já
ouviu falar na Stardust, a nave espacial americana que pousou no deserto de
Gobi. Pois bem; eu sou um dos tripulantes. Rhodan, o comandante, ficou na nave
enquanto eu...
— Perry Rhodan? — Haggard
lembrou-se de algumas notícias de jornal. — Perfeitamente, estou lembrado. Não
houve complicações diplomáticas?
— Complicações diplomáticas
é pouco. Temos motivos para não revelar ao mundo os resultados da nossa
expedição. Na face oculta da Lua encontramos uma nave extraterrena com a
respectiva tripulação. Está com algumas avarias e, para decolar, precisa de
certas peças sobressalentes. Os arcônidas, que são os tripulantes da nave, são
um povo tão decadente que já não conseguem fazer os reparos de que a nave
precisa. São muito inteligentes e tecnologicamente muito desenvolvidos, mas
estão física e psiquicamente arruinados. O diretor-científico da expedição,
chamado Crest, sofre de leucemia. Se tudo permanecer como está, ainda terá
pouco tempo de vida. É muito importante que seja curado, pois o futuro do seu
povo, e também o da humanidade, depende disso. Crest representa a chave que
abrirá o acesso ao espaço cósmico, aos planetas de outros sistemas solares e a
um desenvolvimento técnico inconcebível. Compreendeu o que acabo de dizer?
Haggard confirmou com um
aceno de cabeça.
— É claro que compreendi.
Ouvi falar de uma cratera aberta no deserto do Saara. Isso foi obra de Crest?
— Foi. — Bell absteve-se de
maiores explicações. — E pode fazer coisas bem mais impressionantes. Mas
deixemos isso para mais tarde. Antes de mais nada, uma pergunta: está disposto
a nos ajudar? Concorda em entregar o soro? Em troca dar-lhe-ei este gerador.
Recebi-o dos arcônidas.
Haggard pegou um cigarro.
Havia um tremor quase imperceptível nas suas mãos.
— Só o soro não adiantaria
muito. Crest teria que se submeter a um tratamento em meu sanatório.
— É impossível doutor. Aqui
não estaria em segurança nem por um segundo. Os agentes de todos os países
estarão atrás dele.
Haggard confirmou com um
leve aceno de cabeça. Depois, olhou para Bell.
— Nesse caso, irei com o
senhor.
— O senhor pretende?...
Mas... o hospital? As pesquisas?
— Isso pode esperar. Estou
muito mais interessado nesse tal Crest. É bom que saiba que sempre tive uma
inclinação para coisas incomuns. O senhor acha que eu deixaria escapar esta
oportunidade de examinar o organismo de uma inteligência extraterrena? Quando partiremos?
Bell achou que Haggard
estava indo muito depressa.
— O mais rápido possível.
Mas tenho de resolver alguns assuntos. Preciso de dinheiro para adquirir as
peças sobressalentes destinadas à nave dos arcônidas. São componentes eletrônicos.
Quem sabe se o senhor poderia dar-me uma indicação a respeito disso?
— Conheço várias firmas. Por
um desses geradores dar-lhe-ão um armazém cheio de peças.
— Ótimo! Amanhã faremos uma
visita às grandes casas do ramo. Só disponho de um helicóptero que não pode
transportar volumes muito grandes. Talvez conheça alguém que possua um meio de
transporte com maior capacidade de carga.
Haggard franziu a testa.
— Um dos meus assistentes é
proprietário de um confortável iate. As condições de navegabilidade do barco
são muito boas. Não terá dúvidas em cedê-lo a mim. Daqui a Hong Kong são três
mil quilômetros. Venceremos esta distância em uma semana.
— Muito bem! Em Hong Kong
veremos o que fazer. Meu psico-irradiador saberá cuidar da situação.
— Quem?
Bell tirou o bastão prateado
do bolso.
— É um aparelho formidável,
doutor. Ele lhe permite impor sua vontade a qualquer pessoa até uma distância
de dois quilômetros. Como vê, de qualquer maneira eu o levaria ao deserto de
Gobi, mesmo que não quisesse.
— É inacreditável! — disse
Haggard espantado. — Se isso funcionar não haverá mais qualquer dificuldade.
— Funciona! — tranquilizou-o
Bell.
O dia seguinte foi cheio de
surpresas e de preocupações para os diretores de várias fábricas. Se não fosse a
presença de um médico conceituado, o Dr. Haggard, pensariam que a demonstração
realizada por Bell não era mais que uma engenhosa fraude.
Convencidos da verdade, o
cepticismo transformou-se em vivo entusiasmo. Bell ficou sem os aparelhos e as
fábricas sem algumas caixas de peças eletrônicas.
Como se não bastasse, Bell
ainda recebeu uma boa importância em dinheiro, da qual entregou cinco mil
dólares a Fletcher que já estava com passagem reservada para Nova Iorque.
Haggard pediu que o iate do
seu assistente entrasse na baía que ficava perto ao hospital.
Tudo correra bem até ali.
Três dias mais tarde, o iate estava com toda a carga arrumada a bordo e
preparado para partir. O helicóptero fora firmemente amarrado ao convés.
Os dois homens foram à terra
pela última vez. Haggard, para dar algumas instruções ao seu substituto e Bell,
para desentorpecer as pernas.
Subitamente, ouviu-se o uivo
de uma sirena. Holofotes romperam a escuridão, mergulhando a baía numa forte
claridade. Os motores de pesados helicópteros agitavam o ar plácido do lugar.
Tanques surgiam por entre as moitas que ladeavam a praia e dirigiam seus
canhões para o iate. Soldados apareceram entre o passadiço e o lugar em que
Bell se encontrava. Estavam de armas na mão e prontos para abrir fogo. Um
oficial aproximou-se, vindo de um dos lados. Parou diante de Bell.
— Seu nome é Reginald Bell?
— Será que isso é crime?
— Limite-se a responder às
minhas perguntas. Bell permaneceu calado.
— Pertence à tripulação da
Stardust?
— Já que sabe, por que
pergunta?
Num gesto insolente, Bell
colocou a mão no bolso.
— Deixe disso! — advertiu o
oficial. — Qualquer resistência será inútil. A área está cercada. O Doutor
Frank Haggard já foi preso. O Capitão Fletcher também está sob custódia da
polícia.
— Coitado! Terá um filho —
murmurou Bell, penalizado.
— O quê?
— Tanto faz. O senhor não
compreenderia.
Bell já conseguira regular a
intensidade. Comprimiu o botão do ativador. Olhou atentamente para o oficial.
“Execute dez flexões de
joelho!” pensou, concentrando bem a mente.
Os soldados, que já tinham
se acercado mais, abaixaram as armas e arregalaram os olhos. Subitamente, o
oficial estendeu os braços e começou a flexionar os joelhos. Bell contou. Foram
exatamente dez flexões.
“E agora, diga a esta gente
que dê o fora daqui e volte para o quartel.”
O oficial virou-se e berrou
para os soldados:
— Por que estão parados ai,
seus idiotas? Voltem ao quartel. Vamos logo! Ou eu terei que ensiná-los a andar
depressa.
— O que está acontecendo por
aqui?
A voz fria e calma era de um
civil que saíra inesperadamente das moitas. Seus trajes eram tão discretos que
teriam dado na vista até de um elemento pouco experimentado no assunto como
Bell.
— Os homens têm que voltar
ao quartel — disse o oficial com uma inflexão impessoal na voz. — Têm que
voltar!
O civil dirigiu-se para
Bell.
— O senhor é o Capitão
Reginald Bell?
— Hoje em dia todo mundo
quer saber o meu nome. É interessante! Antigamente, ninguém queria saber como
me chamava. Mas, desde que voltei da Lua a coisa mudou...
— Ah! Quer dizer que
confessa ser Reginald Bell?
— Por que não? O senhor é da
polícia?
— Sou do Serviço de
Segurança. Venha comigo! — Bell virou-se ligeiramente.
— É melhor que o senhor me
siga — recomendou com voz suave, enquanto caminhava em direção aos prédios do
hospital. — Quem está comandando a ação contra mim?
— É o inspetor Miller,
apoiado por toda a guarnição.
Disse o civil em outro tom
de voz.
— E quem prendeu Haggard?
— Fui eu. Ficará na cadeia até
que sua participação nos acontecimentos tenha sido esclarecida. Deseja falar
com ele?
— Providencie imediatamente para
que Haggard seja liberado — ordenou Bell. — Depois, o senhor mesmo o levará a
bordo do iate e fará com que o inspetor Miller suspenda toda e qualquer ação.
Entendido?
— Levar Haggard à bordo e
cessar a ação. Entendido!
Era possível que as novas
instruções não chegassem logo a todos os pontos. Provavelmente, uma ou outra
unidade ainda executaria as ordens anteriores. Nesse caso, seria melhor estar a
bordo do iate. De qualquer maneira, o civil levaria seu prisioneiro a bordo, a
não ser que impedido pelo uso da força.
Bell colocou o neutralizador
de gravidade sobre uma mesa na cabine situada no convés superior, que
possibilitava, visão ampla para o lado da terra. Já que o alcance do aparelho
atingia dez quilômetros, a cidade também seria atingida.
Esperou até que o civil
entregasse Haggard, que estava pasmado. Depois, ligou o neutralizador. O ponto
central, isto é, o iate, conservou seu peso natural. Também a superfície do
mar, sobre a qual não soprava a mais leve brisa ficou como se fosse uma placa
de vidro. Apenas os peixes que saltavam para o ar ofereciam um espetáculo
estranho. O peixe e o repuxo d'água iam subindo lentamente, até que se
perdessem na escuridão.
Bell voltou-se para Haggard.
— É uma pena que não
possamos ver o que está acontecendo na cidade. Todos os. objetos que se
encontrem num raio de dez quilômetros perderam o peso normal. Imagine as forças
policiais suspensas no ar.
— Mas, os meus doentes... —
disse Haggard preocupado.
— O setor em que fica o seu
hospital foi excluído — tranquilizou-o Bell. — Mas já é hora de darmos o fora
daqui. Deixarei o neutralizador ligado. Sua ação também se estende para cima.
Ninguém conseguirá chegar a menos de dez quilômetros de nós.
Envolto numa bolha protetora
de completa imponderabilidade, o iate, batizado com o nome de Zéfiro, deixou o
porto natural e foi navegando mar afora.
Se Bell pudesse ver o que
resultou com o uso do neutralizador, talvez não ficasse tão alegre. O caos
tomou conta da cidade de Darwin. O chão fugiu de debaixo dos homens e dos
veículos que foram subindo lentamente, frente à baixa ação da gravidade. Se
tivessem sorte, alcançariam logo o teto da zona antigravitacional que foi
baixando gradativamente. Nesse caso, o impulso contrário, fazia-os tornar
suavemente à terra. Mas houve alguns que não tiveram tanta sorte. E as quedas
se sucederam, com maior ou menor número de ferimentos ou fraturas.
Naquela mesma noite, a
notícia de tão incrível ocorrência deu a volta ao mundo. E o alarme geral
voltou. Unidades das esquadras das três grandes potências mudaram de rumo.
Tomaram a direção da Célebes, onde se supunha se encontrava o iate que levava a
bordo um dos tripulantes da nave espacial.
No dia seguinte, dois
porta-aviões e sete destróieres da Federação Asiática deixaram seu elemento
natural. Privados do seu peso normal subiram a quase três mil metros antes de
voltarem lentamente ao mar. Diante disso, resolveram desistir da perseguição. E
os mísseis, disparados de uma distância segura, também não tiveram êxito.
Nenhum deles atingiu o alvo. Detonaram a grande altitude ou sob a superfície do
oceano sem causar qualquer dano. Bell conseguiu dirigir o curso dos mísseis
modificando as condições gravitacionais. Porém, ele sabia que as grandes
dificuldades estavam, ainda, por vir. Uma vez que estavam sendo perseguidos por
todo mundo, dificilmente conseguiriam entrar no porto de Hong Kong sem serem
notados. Só com muita sorte voltaria a ver a Stardust.
Fletcher olhava fixamente
para a luz ofuscante da lâmpada. Não compreendia o que estava acontecendo;
tinha os olhos arregalados.
— Basta falar — disse uma
voz áspera vinda detrás da lâmpada. Não viu o rosto da pessoa que lhe falava.
Estava imerso na escuridão. — Por que pretende voltar aos Estados Unidos?
— É por causa de minha
esposa; ela está esperando um filho.
— Foi o que o senhor já
disse. Mas deve ter outros motivos. Ninguém arrisca a vida por causa de um bebê.
— Como pode afirmar isso? É
casado?
O homem invisível pigarreou.
— Por que não ficou com
Perry Rhodan?
— Não sei de quem está
falando. Não conheço nenhum Rhodan. E não sei nada a respeito de uma nave
espacial. Pare de me torturar com suas perguntas incompreensíveis!
— O que Rhodan pretende
fazer com a Stardust?
— Não sei.
— O que encontraram na Lua?
Fletcher procurou mover os
braços. Não conseguiu; estavam presos ao encosto da cadeira por fitas de aço. O
suor gotejava-lhe da testa. Sentia sede. Fechou os olhos, mas a luz ofuscante
atravessou-lhe as pálpebras.
— Não sei.
— Ouça, capitão Fletcher.
Não desistiremos. Se não disser logo a verdade, teremos que usar métodos mais
desagradáveis.
— Não posso dizer o que não
sei.
Ouviram-se vozes baixas
vindas de um canto da sala. Depois disso a lâmpada foi apagada. A iluminação
normal, vinda do teto, parecia triste e escura. Mãos brutais arrancaram
Fletcher da cadeira, depois de soltarem as fitas de aço. Apático, deixou que o
levassem. Não via as portas por onde passava, nem as paredes do corredor ou os
rostos dos seus algozes. Só pensava no avião que, no dia anterior, devia tê-lo
levado para os Estados Unidos. Nem mesmo a sala de operações com sua iluminação
profusa conseguiu remover a rigidez que tomara conta do seu ser.
Deitaram-no sobre uma mesa.
Homens de avental branco amarraram-no. Suportou tudo com a maior indiferença.
Suas articulações foram envolvidas por placas de cobre. Cabos condutores de
energia, com seus frios contatos, cingiram-lhe as têmporas. Depois disso, uma
máquina enorme e estranha começou a funcionar.
Os primeiros reflexos
coloridos surgiram numa tela. Alguns homens à paisana estavam sentados diante
da mesma. Seus rostos exprimiam a tensão de que se achavam possuídos.
— Acha que isso nos ajudará
a descobrir alguma coisa?
— O projetor mental é
infalível, inspetor. Infelizmente, sua utilização pode acarretar um certo
perigo para o acusado. Mas se falar, ou melhor, pensar, nada de prejudicial
poderá acontecer.
— Seus pensamentos são
projetados na tela?
— Isso mesmo. Trata-se de um
aperfeiçoamento do detetor de mentiras que costumava ser empregado até aqui,
mas tem pouca semelhança com o mesmo. Se o homem que se encontra sob a ação
deste aparelho não quiser responder a uma pergunta que lhe fizermos, ao menos
pensará na mesma. Na tela de imagem aparecerá um quadro que corresponde ao que
ele concebe na sua imaginação.
— Acho que já estou
compreendendo. Vamos começar.
Fletcher estava com os olhos
fechados. Ficou quieto, como se quisesse dormir. Seu peito subia e descia ao
ritmo normal da respiração.
Um dos homens inclinou-se
sobre ele.
— Está me ouvindo, Fletcher.
Pode deixar de responder, se preferir. De qualquer maneira, formularei algumas
perguntas. Só fale se desejar. O que pretende fazer nos Estados Unidos?
Os homens olharam para a
tela de imagem. Pela primeira vez, um quadro nítido começou a se delinear.
Surgiu o rosto de uma mulher jovem e bela, que sorria e acenava. Fletcher
parecia gemer. O quadro modificou-se. Camas, enfermeiras, médicos. Depois, a
mulher voltou a aparecer. Estava deitada numa cama. Perto dela via-se uma
criança.
— É verdade! — murmurou o inspetor.
— Só pensa no bebê. É uma idéia fixa. Continue a perguntar, chefe.
O homem designado como chefe
acenou com a cabeça.
— Fletcher, o que aconteceu
na Lua? Precisamos saber o que aconteceu na Lua!
O quadro com a criança
desfez-se imediatamente. Figuras em cores vivas percorriam a tela, formavam
quadros abstratos e desfaziam-se em manchas irreconhecíveis. Depois formou-se
uma espiral que começou a girar rápido, cada vez mais rápido, até
transformar-se num disco rodopiante.
— O que sabe a respeito da
Stardust?
O disco girou mais depressa.
Raios passavam sobre a tela. Fletcher gemeu. Sua respiração era cada vez mais
apressada. O suor corria-lhe da testa.
Um dos homens de avental
branco adiantou-se e colocou a mão sobre o braço do chefe.
— Devemos fazer uma pausa —
recomendou. — O prisioneiro está exausto. O coração não agüenta mais.
— Mal começamos — interveio
o inspetor. — Só mais algumas perguntas.
— O senhor está vendo que o
homem não sabe nada. As imagens da tela indicam um estado de amnésia total.
Está bem! Dar-lhes-ei mais duas tentativas, mas sob sua responsabilidade.
O círculo rodopiante na tela
de imagem tinha desaparecido. A mulher jovem voltou a aparecer. Atravessava um
jardim florido, levando uma menina pela mão.
— Fletcher, quais são as
intenções de Perry Rhodan?
A mulher com a menina
desapareceu imediatamente. O circulo voltou a rodopiar. Reflexos coloridos
surgiam e desapareciam.
— É inútil! — disse o
médico. — O homem não sabe nada.
— Tem de saber! — berrou o
inspetor fora de si. — Pois não perdeu a razão.
— Talvez tenha perdido a
memória.
— Precisamos descobrir o que
aconteceu. Não existe nenhum meio de restituir-lhe a memória?
— Com o tempo talvez
conseguiríamos. Teria de ficar em sossego absoluto durante vários meses; se
possível devia ser posto em liberdade.
— É impossível! Ele
representaria um perigo para o mundo. Lembre-se do tal de Bell, que ontem
diminuiu expressivamente a ação da gravidade na cidade. Nada disso! Fletcher
não pode ficar fora da nossa vigilância um instante sequer.
O médico suspirou.
— Muito bem. Formule a
última pergunta.
O chefe acenou com a cabeça.
Sua atitude diferia sensivelmente da conduta imoderada do inspetor. Encostou a
boca ao ouvido de Fletcher e perguntou:
— Quem é Crest?
Haggard revelara esse nome
durante sua prisão, que só durara alguns minutos. O inspetor ouvira-o, mas não
sabia o que significava.
— Está ouvindo Fletcher?
Quem é Crest? Fletcher esforçou-se para romper as faixas que o prendiam. De
olhos arregalados fitou o homem que o interrogava. No seu rosto via-se o medo,
mas, também alguma coisa parecida com uma recordação que despontava do
subconsciente. Seus punhos cerraram-se. Os lábios murmuraram palavras
inaudíveis.
Na tela de imagem fez-se o
caos.
A roda colorida girava cada
vez mais depressa, até que suas cores se fundissem num cinza monótono. Depois
estourou. As lascas coloridas deslocaram-se para os lados e deslizaram para
fora da tela. Depois esta se tornou negra. E assim continuou.
Um dos médicos inclinou-se e
examinou os olhos enrijecidos de Fletcher. Segurou-lhe o pulso. Depois
ergueu-se e falou com a voz muito séria.
— Está morto!
O inspetor empalideceu.
— Morto? Mas como? Seu
coração estava perfeito.
O médico encolheu os ombros.
— Pode ser que o coração
estivesse perfeito. Acontece que morreu de um derrame cerebral.
Nenhum dos presentes disse
mais nada.
Fletcher estava estendido na
mesa, imóvel. Não mais teria a alegria de assistir ao nascimento do seu filho.
E não saberia que seria uma menina.
O tenente Klein parou diante
da barreira invisível.
Suas mãos sentiram o
obstáculo, mas seus olhos não o viram. Dois mil metros além dele estava a
Stardust, símbolo do orgulho e da esperança frustrada do mundo ocidental. Já
agora transformara-se no pavor de toda a humanidade.
Uma figura solitária veio ao
seu encontro. Era o major Rhodan, que já conhecia de numerosos filmes. Parou a
menos de dois metros. Tinha lápis e papel na mão.
— O que deseja? Quem é o
senhor? — estava escrito no papel.
Klein nem se lembrara disso.
Se o anteparo energético detinha uma explosão atômica, evidentemente não
deixaria passar as ondas sonoras. Revirou os bolsos; acabou encontrando lápis e
papel. Pelo menos havia possibilidade de comunicar-se.
— Sou o tenente Klein. Vim
por ordem de Mercant e Pounder, para negociar com o senhor.
Perry Rhodan sorriu e
escreveu:
— Tire a roupa. Depois disso
suspenderei o anteparo por alguns segundos.
— Tirar a roupa?
— Sim. Para que não possa
trazer nenhuma arma.
Klein olhou instintivamente
para os lados, mas não viu ninguém. É verdade que Li e Kosnow, escondidos atrás
das moitas, de outro lado do rio, arregalariam os olhos. Mas isso pouco lhe
importava. O importante era atravessar o anteparo, façanha que até então ninguém
conseguira realizar. Tirou a roupa e empilhou-a cuidadosamente.
Perry acenou com a cabeça.
Levantou o braço direito e fez um sinal em direção à nave. Subitamente, Klein
ouviu sua voz.
— Venha depressa. Chegue
perto de mim. Sentiu que o ar quente e o frio se misturaram quando a cúpula
energética foi levantada. Logo chegou perto de Perry.
No mesmo instante o vento
cessou por completo. A cúpula invisível voltara a cobrir a nave. Estava isolada
do resto do mundo.
— Quer dizer que Pounder o
mandou? — disse Perry, enquanto lhe apertava a mão. — Já imaginava que um dia o
velho me mandaria um mensageiro. Como conseguiu atravessar o território
inimigo?
— Não foi difícil —
confessou Klein. — A vigilância diminuiu muito.
— Será? — disse Perry em tom
de dúvida. — Venha, empresto-lhe uma calça.
Foram andando devagar em
direção à Stardust.
Klein sentia uma simpatia
inexplicável pelo homem que se encontrava ao seu lado. Recebera ordem de
matá-lo de qualquer maneira, se não quisesse submeter-se às ordens de Mercant.
No momento, nem se podia pensar nisso. Dificilmente conseguiria mata-lo com as
mãos desarmadas. E como faria para destruir a Stardust? Sabia da carga
explosiva existente a bordo da mesma. Mas ainda havia três homens além de
Rhodan. Não seria fácil, mesmo que quisesse.
Será que queria?
Sentaram numa pedra lisa que
ficava perto da nave.
— Agora fale com franqueza, tenente
Klein. Qual foi a ordem que recebeu? O que mandam dizer? Foi realmente Pounder
que o mandou?
O agente sacudiu a cabeça.
— Não foi o próprio Pounder.
Pertenço ao Conselho Internacional de Defesa, dirigido por Mercant. Recebi
ordem para convencê-lo a abandonar a Stardust e acompanhar-me para Nevada
Fields. Caso se recuse, devo matá-lo e destruir a nave.
Perry gritou algumas
palavras para Manoli, que apontou na escotilha. O médico trouxe uma calça de
uniforme. Klein vestiu-a.
— Este é o Dr. Manoli. O
tenente Klein, do Conselho Internacional de Defesa. Fique com Crest, Eric.
Diga-lhe que temos visita.
Esperou até que o médico
desaparecesse. Depois respondeu às palavras de Klein.
— Então suas ordens são
estas? Por que me contou?
— Porque confio em você,
Rhodan. E porque nestes últimos dias passei por alguma coisa que me abalou.
— O que foi?
— Daqui a pouco contarei,
Rhodan. Antes disso responda a uma pergunta minha.
— As perguntas e as
respostas surgem espontaneamente no curso da nossa palestra. Você responde, eu
respondo, e o quadro vai se traçando por si. O general Pounder ficou muito
decepcionado comigo?
— Ficou. Não compreende os
motivos que o fizeram agir assim. Mas procura compreender, enquanto a opinião
de Mercant é inabalável. Para ele, você é um traidor.
— Para Pounder, não? E para
você? Qual é a sua opinião?
— Você é um traidor aos
olhos de Mercant, e talvez aos olhos da maior parte dos homens do Ocidente. Na
opinião dessas pessoas, devia ter entregue ao seu país as invenções que
descobriu na Lua. Isso seria de justiça até mesmo do ponto de vista econômico,
pois você nunca teria chegado à Lua sem os recursos financeiros proporcionados
pelos Estados Unidos. No entanto, pode haver motivos que invalidem todas as
leis morais. Mas esses motivos teriam de ser muito sérios.
— Os meus motivos são sérios
— disse Perry decidido. — Minha consciência e meu senso lógico não me permitem
entregar a uma potência terrena os imensos recursos tecnológicos que descobri
na Lua. Qual seria a conseqüência disso, tenente Klein? Pense bem antes de
responder.
— Não há muito que pensar.
Antes que os Estados Unidos, acho que é o país de que teríamos de cogitar em
primeiro lugar, tivessem tempo de experimentar as novas armas, o medo e o
pânico fariam com que os outros países disparassem seus foguetes atômicos. A
guerra e o extermínio total dela decorrente seriam inevitáveis. Já compreendi
onde pretende chegar, major Rhodan. Será que os outros também compreenderão?
— Terão de compreender! —
retrucou Perry em tom áspero. Seus olhos exprimiam uma decisão inabalável. — O
que está em jogo é muito mais que a manutenção da paz. Como sabe, encontramos
uma tecnologia estranha na Lua. O que o senhor não sabe é que os criadores
dessa tecnologia, os arcônidas, ainda vivem. Um dos seus cientistas encontra-se
a bordo da Stardust.
Klein precisou de um minuto
inteiro para recuperar-se do espanto.
— Não estão extintos? Ainda
vivem? E podem fabricar maior quantidade dessas armas, se desejarem?
— Não apenas armas, mas
também coisas úteis: fontes de energia inesgotáveis em forma de geradores
portáteis, veículos movidos com as mesmas, navios, aeronaves de transporte,
espaçonaves. Poderia prosseguir indefinidamente na enumeração. Provavelmente
agora já compreende por que me vi obrigado a pousar aqui, e por que tenho de
repelir toda e qualquer pessoa que queira chegar aqui. Você é a primeira
exceção.
— Por quê?
— Porque vem da parte de
Mercant e de Pounder. Prezo bastante esses homens, e gostaria que
compreendessem os meus motivos. Tenente Klein, você só estará em condições de
explicar os meus motivos aos outros se chegar a compreendê-los por si. Não os
explicarei.
Klein sorriu.
— Compreendo. Até compreendo
muito bem. E acredito que sei onde o senhor pretende chegar. Ali junto ao rio,
do outro lado do anteparo energético, dois colegas estão esperando por mim. Não
são americanos ou europeus ocidentais. Um é agente da Federação Asiática e
outro do bloco oriental. Unimo-nos para solucionar um problema comum. Há poucos
dias a irrupção da guerra parecia iminente. Hoje os inimigos mortais de ontem
estão colaborando entre si, para combater um poder mais forte.
Perry acenou com a cabeça e
retribuiu o sorriso.
— Muito bem. Continue.
Parece que já nos entendemos.
— Não tenho mais nada a
dizer. Absolutamente nada. Apenas gostaria que você confirmasse que este acontecimento
relativamente insignificante constitui o início da grande transformação que tem
em mente.
— É isso mesmo. Posso
representar uma ameaça séria para o mundo, mas não para a paz duvidosa que
reina no mesmo. O medo de mim e do poder dos arcônidas unirá os povos do mundo.
Uma vez realizada essa união, nada impedirá a entrega da tecnologia galáctica a
um governo mundial estável. Tenente Klein, peço-lhe que relate isto a Mercant e
ao general Pounder. Agora gostaria de apresentar-lhe meu hóspede, o arcônida
Crest. Peço-lhe que me acompanhe ao interior da nave.
Duas horas depois, quando o
tenente Klein voltou a encontrar-se com os dois colegas que o esperavam à
margem do rio, nada poderia modificar a decisão que tomara. Era o primeiro
homem disposto a lutar pela idéia de Perry Rhodan, idéia essa que constituiria
a base moral do futuro Império Estelar.
— Então? — perguntou Kosnow
e levantou-se.
— O que aconteceu? — indagou
Li.
Klein ficou andando entre os
dois. À sua esquerda o russo avançava a passos vigorosos, levantando pequenas
nuvens de pó com as botas. À sua direita, Li, o chinês, andava a passos
saltitantes. Nos seus olhos lia-se a desconfiança.
— Conte logo, tenente.
Conseguiu alguma coisa? — Klein confirmou com um aceno de cabeça.
— Consegui praticamente
tudo. Minha missão está finda. E acredito que a de vocês também esteja.
Explicarei por quê. Li, acho que somos bons companheiros, não somos?
Compreendemo-nos muito bem. Kosnow, você acha que seríamos capazes de matar-nos
uns aos outros só por termos idéias diferentes sobre determinados assuntos?
Estão sacudindo a cabeça. Tanto melhor! Vocês sabem dizer o que aconteceria se
essa nave espacial deixasse de existir juntamente com as invenções fabulosas
trazidas da Lua? Ou se caísse nas mãos de qualquer das grandes potências?
Nenhum dos dois respondeu.
— Pois eu lhes digo. No
mesmo instante apontaríamos as armas uns para os outros. Voltaríamos a ser
inimigos ferrenhos. E isso apenas porque a ameaça maior deixou de existir. Isso
que aconteceria conosco também aconteceria aos governos das grandes potências.
O fim da Stardust seria o fim da paz. Compreenderam? Enquanto a terceira
potência, a potência dos arcônidas, estiver por aqui, o nosso mundo continuará
a existir. A nós três foi dada a chance de conservar a paz mundial. Para isso
teremos de retornar aos nossos países e comunicar que é impossível alcançar a Stardust.
Dessa forma continuaremos amigos, e as potências que representamos também
continuarão.
Li esboçou um sorriso
imperscrutável.
— Há seis dias já me ocorreu
uma idéia semelhante, mas não tive coragem de exprimi-la. Hoje digo que
concordo com o que você acaba de dizer.
Klein e o chinês lançaram um
olhar de expectativa para o russo. Kosnow ficou parado. Retribuiu o olhar dos
companheiros.
— Acredito que no mar Negro
a extração do sal será mais rendosa que aqui. Mudaremos de acampamento.
Os três riram. Depois
apertaram-se as mãos.
A cidade de Hong Kong
parecia um acampamento militar quando o iate Zéfiro entrou no porto.
Bell desligara o
neutralizador, mas ficou com ele ao alcance da mão; queria estar prevenido no
caso de um ataque. Haggard instruíra a.tripulação no sentido “de atracar”. Os
dois homens estavam de pé na proa!
— A situação parece um pouco
crítica — murmurou o médico num tom de ceticismo. — Como poderemos desembarcar
sem que nos peguem? O mundo inteiro já sabe que estamos aqui.
— E daí? — Bell mostrou-se
espantado. Estava brincando com o psico-irradiador. — Com este aparelho posso
fazer a cidade inteira mergulhar num sono bem profundo. Poderei transmitir uma
ordem a qualquer habitante da cidade, inclusive aos soldados, e a ordem será
cumprida à risca. Não vejo nenhum motivo para preocupações. Ainda mais que aqui
não é possível utilizar armas atômicas táticas, que são as únicas que poderiam
representar um perigo para nós.
— Como vai fazer para
descarregar o meu laboratório? Como pretende transportar as peças
sobressalentes até o deserto de Gobi?
— Com o tempo encontramos um
meio — tranquilizou-o Bell. — Faremos com que o administrador do porto venha
até aqui assim que atracarmos. Por que resolveu trazer seu laboratório gigante?
Ainda não tive tempo de lhe fazer esta pergunta.
— Laboratório gigante?
Trata-se de um pequeno laboratório transportável, dotado do equipamento mais
moderno, como instrumentos óticos, aparelhos de análise de metabolismo e
amostras de medicamentos de toda espécie. Não se esqueça de que teremos de
lidar com um ser biologicamente diferente, que provavelmente reagirá de forma
diferente de nós. Também existe um aparelho de raios X, e...
— E eu que pensava que tudo
ficaria resolvido com uma seringa e algumas ampolas de soro — disse Bell com um
suspiro.
— É engano, meu caro Bell.
Mas olhe os tanques parados ali no cais. Estão esperando a oportunidade de
afundar o nosso iate.
— Que nada! Se quisessem, já
teriam tentado. Sabem muito bem que, se o fizerem, eu os mando para os ares, no
sentido literal da palavra. Muito bem. Estamos atracados. E agora vou usar
minha varinha mágica.
Dirigiu o irradiador com
meia intensidade sobre o edifício baixo que ficava junto ao cais e pensou
intensamente:
“O administrador do porto
deve comparecer imediatamente ao pier número sete. Administrador do porto no
pier número sete. Urgente. Suba a bordo do iate Zéfiro.”
Provavelmente Bell
estouraria de rir, se visse o que fez com sua ordem mental. No entanto, não
pôde presenciar o espetáculo. No edifício da administração do porto trabalhavam
cerca de duzentas pessoas. De repente todas elas se sentiram na obrigação de
avisar o administrador de que devia comparecer imediatamente ao píer número
sete, onde o iate Zéfiro esperava por ele. O administrador que, seguindo a ordem
interior, já se pusera a caminho, teve de conter todo o funcionalismo, que se
interpunha no caminho, para dar o aviso.
— Já sei, já sei — disse em
voz alta, para que todos ouvissem. Correu para o cais, onde teve de abrir
caminho entre uma multidão de trabalhadores do porto, que o assediavam para
avisá-lo de que devia comparecer imediatamente ao píer número sete, onde um
iate...
Chegou esbaforido ao local
em que se encontrava o iate. No caminho o comandante das forças blindadas
reunira-se a ele em silêncio. Subiram juntos no estreito passadiço.
Bell deixara ligado o
psico-irradiador, colocando-o num lugar de onde alcançava o píer e o convés.
Não podia ser visto, mas produzia seus efeitos.
Haggard não conseguiu
disfarçar o nervosismo. Bell, todavia, recebeu os visitantes sem o menor
constrangimento.
— Fico muito satisfeito com
a sua visita — disse em tom convicto. — E agradeço pela parada formidável que
fizeram realizar em minha ordem. Não havia necessidade disso. Senhor
administrador, dentro de duas horas preciso de vinte trabalhadores para
descarregar o iate. Quer tomar as providências necessárias? Obrigado. Pode
retirar-se.
O administrador fez uma
ligeira mesura e retirou-se. O oficial das forças blindadas ficou parado.
Parecia estar esperando alguma coisa.
— Quem está comandando as
tropas mobilizadas em Hong Kong? — perguntou Bell.
— O marechal Roon.
— Roon? Não é aquele oficial
que subiu ao ar com tanta pompa quando Perry ligou o neutralizador? É claro que
é ele! Este helicóptero é dele. Podia aproveitar a oportunidade para vir
buscá-lo.
— Perfeitamente. Avisarei
imediatamente o marechal Roon.
Dez minutos depois um grupo
de oficiais de patente elevada passou pelo píer estreito, vindo do cais.
Viam-se luzir as faixas douradas. Devia ser o marechal Roon.
O psico-irradiador estava
escondido por baixo de uma amarra enrolada. Sua ação atingia todo o grupo, mas
ninguém perceberia seus efeitos enquanto alguém não dirigisse a palavra a Bell.
Depois de confabular
ligeiramente, Roon subiu a bordo acompanhado de dois oficiais. Já se esquecera
do que o tinha trazido até aqui. Só se guiava pela ordem de que sua mente tinha
tomado consciência.
Bell projetou o peito para a
frente, o que conferiu linhas mais arredondadas ao corpo. Os cabelos cortados
rente estavam de pé. Colocou a mão na boina.
— É o marechal Roon? Fico
satisfeito em ver que compareceu tão depressa. Senhores oficiais, dou-lhes as
boas-vindas a bordo do Zéfiro. Marechal, permite que lhe pergunte se apreciou
aquela viagem aérea? Deve estar lembrado. A Stardust, o deserto de Gobi. Um
certo major Butaan também se encontrava presente.
— É claro que me lembro. Foi
um fenômeno estranho. Uma invenção dos demônios brancos. Além disso, roubaram
meu helicóptero. Se não me engano o senhor é o capitão Reginald Bell. Devo
intimá-lo para que se renda.
— Mas, marechal, logo nós
que somos tão amigos; só pode estar brincando. Eu lhe devolvo o helicóptero e
damos o incidente por encerrado. Está de acordo?
— De acordo! — respondeu
Roon sem a menor hesitação.
— Além disso, o senhor vai
retirar suas tropas de Hong Kong, e expedirá uma ordem ao exército. A Stardust
não mais será atacada. O senhor ainda assegurará livre transito e dispensa toda
proteção ao comboio de transporte dirigido por Reginald Bell. Entendido?
— Entendido.
— Muito bem. Providencie
para que dentro de uma hora estejam aqui três caminhões. Um deles será ocupado
pelo senhor juntamente com dez oficiais de alta patente. Levem cobertores ou
sacos de dormir. Os outros deverão estar vazios pois transportarão a carga. Certo?
O marechal Roon prestou
continência para Bell.
— As ordens serão executadas.
Mais alguma coisa?
— Sim, marechal. Desautorize
qualquer ordem que tenham em vista um ataque contra a Stardust ou seus
tripulantes. Expeça as respectivas instruções aos seus escalões inferiores.
Roon ficou em posição de
sentido. Deu meia-volta e saiu do iate. Chegando ao píer, os outros oficiais
começaram a falar-lhe com insistência. Roon, porém, berrou com eles de tal
forma que encolheram a cabeça e ficaram quietos. Afinal, o marechal era ele;
devia saber o que estava fazendo.
E Roon sabia.
Finalmente, Haggard
conseguiu fechar a boca.
— É formidável! —
principiou, mas Bell interrompeu-o.
— O senhor ficará muito mais
admirado quando falar com Crest. Eu lhe disse que conseguiríamos.
Ficaram aguardando com toda
a calma. Viram os tanques se reunirem perto do cais e começarem a se afastar em
direção a leste da cidade. As tropas de infantaria começaram a se retirar,
também. Apenas o pessoal da polícia hesitou e, por isso, Bell não teve
contemplação. Pegou o psico-irradiador e ordenou:
— Atenção todos os membros
da polícia, inclusive serviço secreto, deitem-se todos!
Ficou espantado ao ver
quantas pessoas se deitaram. Até mesmo respeitáveis senhores de idade que
pareciam passear para espantar o tédio atiraram-se desassombradamente na lama
da rua. Trabalhadores aparentemente inofensivos e vários pescadores fizeram a
mesma coisa. Evidentemente também foram acompanhados por policiais
uniformizados.
— Arrastar-se! — ordenou
Bell numa alegria incontida. Jurou que nunca mais largaria o psico-irradiador.
— Arrastar-se até o alojamento.
Bandos ruidosos de crianças
acompanhavam os temíveis policiais que se arrastavam colados ao chão. Ninguém
sabia explicar o fato, mas todos achavam que era perfeitamente natural. É que
todos tinham compreendido a ordem, embora não soubessem de onde tinha vindo.
Mas quem não pertencesse à polícia não era atingido por ela.
A zona portuária ficou
literalmente deserta.
Depois de algum tempo,
chegaram cerca de vinte trabalhadores e os três caminhões. Dois oficiais
estavam sentados na carroçaria do último deles, numa atitude de expectativa.
— Fiquem quietos aguardando
novas ordens. Os senhores formarão a escolta do comboio. Rechaçarão qualquer
ataque com suas pistolas. É só.
O transbordo da carga não
levou muito tempo. Dali a uma hora estava tudo pronto. O iate suspendeu âncoras
e foi deslizando mar afora. Bell desejou-lhe um feliz regresso.
Ele mesmo tomou o lugar na
cabine do primeiro caminhão. Haggard foi no segundo, que transportava seu
precioso laboratório. O comboio pôs-se em movimento e saiu sacolejando pela rua
esburacada. Só na periferia da cidade as condições da pista de rolamento
começaram a melhorar; aumentaram a velocidade. Não se via nenhum soldado,
nenhum policial.
Em Cantão, atingiram a larga
e bem asfaltada rodovia que, numa extensão de dois mil quilômetros, ligava
aquela cidade a Lan-Shou. Dali em diante, teriam que rumar para o norte,
passando pelo vale do Hwang-Ho e pela cordilheira de Alaschan. Chegando à
altura do meridiano 38, penetrariam no deserto, seguindo em direção ao oeste.
Se tudo corresse bem, a viagem demoraria cerca de três dias.
De Pequim para Washington:
Diversas ocorrências parecem
provar que, contrariamente à opinião mais recente, segundo a qual as
informações do major Rhodan poderiam ser verdadeiras, a Stardust na verdade é
uma base ocidental. Segundo os nossos cientistas, é perfeitamente possível que
a eliminação gradativa da gravidade seja uma invenção terrena. Por isso
voltamos a exigir que a base situada no deserto de Gobi seja evacuada
imediatamente.
De Washington para Pequim:
Qual é a explicação que seus
cientistas fornecem para o novo vulcão no Saara, que ainda continua ativo?
Asseveramos que nada temos a ver com a Stardust. Estamos tão interessados na
eliminação dessa ameaça quanto os senhores.
De Pequim para Washington:
A cratera pode ser o
resultado de uma ação bem planejada que nada tem a ver com o raio energético.
Nossa opinião de que a Stardust é uma base americana foi reforçada pelo fato de
que nossos agentes se viram impedidos pelos seus de se aproximarem da nave
espacial. Por outro lado, seus agentes têm livre acesso à Stardust. Reiteramos
nossa advertência.
De Washington para Pequim:
Não temos conhecimento de
que qualquer dos nossos agentes tenha entrado em contato com o major Rhodan.
Deve haver algum engano. O incidente será esclarecido.
De Moscou para Washington:
Exigimos retirada imediata
de sua base no deserto de Gobi.
De Moscou para Pequim:
Exigimos remoção imediata base
americana do território de seu país.
O ataque verificou-se três
dias após a partida de Hong Kong. O comboio tinha passado pela cordilheira de
Alaschan e estava se deslocando em direção ao oeste. A antiga estrada de
caravanas estava em péssimo estado; não permitia sequer uma velocidade de dez
quilômetros horários. Era necessário . contornar buracos enormes. Sulcos
profundos abertos pelas rodas dos veículos ou pelas águas das chuvas obrigavam
a manobras extremamente difíceis.
Felizmente, naquele momento,
estavam atravessando uma depressão do terreno. Se não fosse assim, a primeira
rajada teria atingido o alvo. Nessas condições, porém, as pesadas granadas
passaram zunindo por cima de suas cabeças e foram detonar na vertente norte da
cadeia de Richthofen.
Bell mandou que o comboio
parasse imediatamente. Fez com que os veículos encostassem do lado direito da
estrada, onde o precipício íngreme os protegia contra o impacto direto das
granadas disparadas do norte. Pegou o neutralizador de gravidade e foi subindo.
Chegado ao topo da colina, descansou a caixinha e olhou em direção ao deserto.
“Diabo! Esses camaradas já
deviam ter aprendido”, pensou Bell. As tropas encontravam-se mais de dez
quilômetros de distância. Haviam montado uma verdadeira posição de combate.
Bell pediu a um dos oficiais que lhe desse um binóculo.
Havia, pelo menos, oito
canhões de grosso calibre. Mais à direita, uma bateria de peças leves. Em meio
a isso, tinham sido montados ninhos de metralhadoras.
O neutralizador de gravidade
não alcançaria o adversário.
Outra rajada passou por cima
de sua cabeça, numa altura menor. Os impactos estavam mais próximos.
— Haggard! No caminhão da
frente há um transmissor. Pegue um dos oficiais e procure entrar em conta to
com a Stardust. Faixa de 37,3 metros. Avise-me assim que responderem. Mas ande
depressa, senão essa gente acaba acertando a pontaria. Não posso fazer nada
para impedi-lo.
Entre os oficiais, Haggard
encontrou um telegrafista. Assim mesmo, dez intermináveis minutos passaram-se
até que chegasse a resposta da Stardust. Bell escorregou encosta abaixo e pediu
a Haggard que subisse. Tinham que estar prevenidos contra um ataque de surpresa
da infantaria.
— Perry, é você?
— Bell, meu velho! Você
ainda está vivo? Onde está metido? Deu tudo certo?
— Até agora sim. Encontro-me
a menos de cem quilômetros da Stardust. Estou com três caminhões cheios de
peças para Crest. O doutor Haggard, descobridor do soro anti-leucêmico, está
comigo. Acontece que os chineses estão desfechando um ataque de artilharia
contra nós.
—- E daí? Até agora você
conseguiu se defender.
— É, mas não se esqueça de
que os outros também aprendem. Já sabem que não devem aproximar-se a menos de
dez quilômetros. Também deixaram de empregar mísseis; sabem que posso
desviá-los. Todavia, nem mesmo eu estou livre do impacto casual de uma granada,
por mais que procure desviá-la. Você tem que me ajudar e depressa.
Fez uma rápida pausa.
— Um instante. Ei,
motorista! O mapa.
Dentro de poucos minutos,
Perry soube a localização exata do comboio e das posições da artilharia
inimiga. Prometeu pedir auxílio imediato a Crest. Bell ficou com o receptor
ligado.
Os impactos das granadas
foram se aproximando de forma assustadora. Alguns projéteis menores passaram
sibilando bem por cima dos caminhões. Um deles chegou a detonar na colina que
limitava a depressão ao sul. Embora tivesse sido por puro acaso, era
conveniente sair dali antes que o pior acontecesse.
Perry voltou a falar.
— Crest pensou em pedir a
Thora que lançasse o raio energético, mas a Lua ainda se encontra abaixo do
horizonte. É impossível. Daqui também não podemos fazer nada. Mas existe uma
possibilidade. Vendeu todos os geradores?
— Não, ainda fiquei com
dois.
— Então agradeça aos céus,
meu velho. Você prefere utilizar o psico-irradiador ou o neutralizador?
— Mas a distância é muito...
— Não fique nervoso, pois
isso faz mal à saúde.
Então, qual dos dois
prefere? Aliás, tendo dois geradores também pode usar ambos. Para encurtar a
conversa: a reserva de energia do psico-irradiador e do neutralizador é muito
reduzida para atingir uma distância superior à prevista. Se forem ligados ao
gerador, seu alcance decuplicará. É verdade que só por uns poucos minutos. É
necessário intercalar uma pausa, para evitar a sobrecarga do aparelho.
Entendido?
— E como faço a ligação?
— Basta um cabo que ligue o
neutralizador ao gerador. Na parte posterior há uma tampa. Retire-a. Por baixo
dela encontrará uma tomada. Basta enfiar os pinos do gerador e...
— Está bem, mestre e senhor.
Muito obrigado. Que pena que você não poderá assistir ao que vai acontecer
daqui a pouco.
— Não se preocupe.
Assistirei. Para isso, até me arrisco a desligar o anteparo energético. Acho
que você chegará aqui antes do anoitecer.
Bell já não estava
escutando. Agora que sabia o que fazer, não quis perder um único minuto. Os
oficiais e motoristas receberam ordem para ficar em silêncio. Haggard segurou o
neutralizador com o gerador ligado ao mesmo. Bell ficou com o psico-irradiador
cuja potência também fora aumentada.
Rhodan, que estava sentado
diante da tela em companhia de Manoli e Crest, certamente se divertiu muito com
o espetáculo que se seguiu. Contemplaram a cena de cima. A microssonda estava
flutuando três mil metros acima das posições inimigas.
No início, nada aconteceu.
Mas quando os canhões pesados
dispararam, os espectadores viram-se diante de um quadro grotesco. Diminuída a
ação da gravidade, as granadas saíram em linha reta, até que se perdessem junto
às montanhas distantes. Os canhões, submetidos a uma força de recuo
equivalente, foram deslizando devagar em sentido oposto, subindo aos poucos. A
queda gradual que se seguiu revelou que Bell devia ter mantido um décimo da
gravitação comum, para que retornassem ao solo são e salvos, sem correrem o
risco de morrer em virtude de uma queda mais violenta. Crest registrou o fato
com um gesto de aprovação.
Os canhões menores não
tiveram melhor sorte.
Mas o melhor ainda estava
por vir. Como se estivessem obedecendo a um comando único, todos os soldados —
os artilheiros, os oficiais, os motoristas e as guarnições das metralhadoras —
viraram-se subitamente e começaram a correr. Em direção ao norte. Realizavam
saltos enormes, como se fossem pulgas gigantescas. Só atingiam o solo centenas
de metros mais adiante, e logo voltavam a saltar. Os saltos foram se tornando
mais curtos. Certamente Bell estava desligando o neutralizador aos poucos.
Finalmente os coitados estavam apenas correndo. Corriam e corriam, como se
fugissem do demônio. Provavelmente teriam continuado a correr, mesmo que Bell
não lhes tivesse dado ordem para se refrescarem com um banho no lago salgado
mais próximo do deserto de Ning-Hsia.
Perry girou um botão do
receptor.
A sonda desceu. A imagem de
Bell apareceu na tela, grandemente ampliada. Perto dele via-se um tipo atlético
de cabelos castanho-escuros. Ambos riam tanto que as lágrimas lhes desciam pela
face. Desceram a encosta e entraram nos seus veículos.
No momento em que deram a
partida Bell ainda estava rindo.
Perry desligou. Olhou para
Crest. Nos olhos do arcônida via-se um sorriso delicado. Acenou lentamente com
a cabeça.
— Admiro você e a sua raça —
disse. — Mas talvez esteja enganado; pode ser que você seja uma exceção. Seu
amigo poderia ter matado os inimigos. Por que não o fez?
— Porque está em situação de
superioridade de armas.
Crest respondeu com novo
aceno de cabeça.
— Era o que eu imaginava. E
sei que não há ninguém melhor que vocês para receber o nosso legado. Você
conseguirá, Perry. Alcançará o seu objetivo.
— Obrigado — respondeu Perry
em tom caloroso.
Quatro horas depois dois caminhões
entraram por baixo do anteparo energético que tinha sido levantado. O terceiro
voltou para o leste com três motoristas e dez oficiais.
Receberam ordens estritas
para apresentar-se ao Comando Geral em Pequim, e informar o mesmo de que a
terceira potência desejava estabelecer relações diplomáticas com a Federação
Asiática.
De Pequim para Washington:
O novo incidente prova que
seu governo não pretende atender às nossas exigências. Por isso decidimos
romper as relações diplomáticas amanhã ao meio-dia, hora local, a não ser que
até então a situação tenha sido esclarecida. A Federação Asiática dispõe de
meios para repelir qualquer ataque.
De Pequim para Moscou:
Aguardamos um pronunciamento
claro sobre sua posição quanto à presença de uma base americana no deserto de
Gobi. A resposta deverá estar aqui amanhã ás dez horas da manhã.
De Pequim para a Stardust:
Consideramos ridícula sua
proposta de estabelecer relações diplomáticas com uma nave espacial.
Intimamo-los pela última vez a se renderem através de mensagem telegráfica.
Saiam da nave sem armas e desliguem o anteparo energético. Caso sua resposta
seja negativa, as relações diplomáticas com os países do bloco ocidental serão
rompidas amanhã ao meio-dia.
De Washington para Pequim:
Voltamos a assegurar que não
temos qualquer explicação para a situação atual. Propomos a realização de uma
conferência dos dirigentes dos países interessados...
Da Stardust para Pequim:
Reiteramos nossa oferta.
Comunicamos ainda que utilizaremos os meios de que dispomos para evitar
qualquer conflito armado entre as potências.
De Moscou para Pequim:
Acusamos o recebimento da
sua nota.
A lua minguante seguia o
sol, que já descera atrás da linha do horizonte. A posição favorável permitia
uma comunicação visual direta com Thora.
Apesar do seu vigoroso
autodomínio, Perry não conseguiu reprimir a sensação estranha que se apossou
dele ao ver aquela mulher, que era de uma beleza extraordinária. Seu cabelo
claro, quase branco, contrastava de forma agradável com os olhos
vermelho-dourados, que o olharam com uma expressão fria e realista.
Num tom arrogante que fez
com que Perry ficasse rubro de raiva disse:
— Por que chamou?
— Crest quer falar-lhe —
respondeu Perry em tom gélido.
— Pois então vá buscá-lo.
Perry não respondeu.
Lançou-lhe mais um olhar e retirou-se. Crest ocupou o lugar diante da tela de
imagem com o rosto indiferente. Começou a falar numa língua desconhecida,
altamente melódica. Sua voz era insistente. Às vezes parecia ordenar, outras
vezes pedir. Vez por outra Thora dava uma resposta ou formulava alguma
pergunta. Finalmente disse alguma coisa e acenou com a cabeça. Depois disso a
imagem desapareceu. A tela de imagem apagou-se.
Crest ficou sentado mais
cinco segundos diante do receptor, imóvel. Depois levantou-se. Suspirou.
— Por enquanto fará o que
mandei. Mas estou prevendo que mais tarde teremos dificuldades com ela. Fica
aferrada às leis antigas; não compreende a necessidade de uma modificação. Fará
tudo para impedir uma aproximação entre sua raça e a minha.
— Quem sabe se devo conversar
com ela por alguns minutos, de psico-irradiador na mão — sugeriu Bell em tom
decidido. — Depois disso ficará tão comportada como os oficiais do exército
asiático.
Crest destruiu as esperanças
de Bell.
— Os seres da nossa raça
dispõem de uma proteção contra os efeitos do irradiador. Mas um dia terá de
reconhecer onde está o futuro da sua raça. De qualquer maneira está orientada a
respeito da nossa situação. Recomendou-me que embarcasse numa pequena nave
espacial que seria enviada por ela. Depois disso, dirigiria o raio energético
para todos os cantos da Terra. Consegui convencê-la de que não alcançaria nada
com isso. Deixei claro que minha cura é o que interessa em primeiro lugar. E
não se trata apenas de minha cura, pois suponho que toda a nossa raça sofra de
leucemia em virtude da degenerescência. Este motivo já basta para obrigar-me a
continuar aqui. Amanhã, Thora vigiará a situação a bordo de uma nave auxiliar.
Circulará em torno da Terra a uma órbita constante, a mil quilômetros de
altura. Um campo de nêutrons constantemente renovado impedirá toda e qualquer
explosão atômica. Serão criados campos magnéticos que desviarão os foguetes do
seu curso, fazendo-os caírem no mar. Um raio energético de intensidade reduzida
obrigará as aeronaves que se lançarem a um ataque a pousarem no solo. O abastecimento
de energia será suspenso e as comunicações radiofônicas serão interrompidas por
linhas de sangria, que subtrairão energia. Não se preocupem, cavalheiros: não
haverá guerra, mesmo que os três blocos a desejem. Amanhã entraremos em
negociações com os governos, e eles se verão obrigados a nos reconhecer.
— E até lá? — perguntou
Perry.
— Até lá só nos resta
esperar.
Eric Manoli colocou a mão
sobre o ombro de Crest.
— Crest, faça o favor de
voltar para a cama. O senhor deve evitar qualquer esforço. Amanhã, quando tudo
estiver normalizado, o doutor Haggard o examinará. Estou convencido de que
conseguirá curá-lo.
Crest esboçou um sorriso de
gratidão.
— Se ele não conseguir,
ninguém mais conseguirá.
Seguiram-no com os olhos.
Bell acompanhou-o e ajudou-o a arrumar as cobertas sobre a cama.
Haggard lançou um olhar
indagador para Manoli.
— Já pôde apurar alguma
coisa? Teve oportunidade de examiná-lo e firmar um diagnóstico?
— Vamos a minha cabine. Lá
poderei relatar com mais calma as observações até aqui. Acho que se unirmos
nossos esforços, conseguiremos o seu restabelecimento. Ele não corre perigo
imediato.
Perry ficou só na sala de
comando.
Olhou para o céu noturno que
se erguia acima da cúpula transparente da nave. As estrelas cintilavam com uma
claridade raramente observada. A lua minguante descia para o horizonte. Dentro
de uma ou duas horas desapareceria.
Amanhã, seria o dia da
decisão final. Se nada conseguia convencer o mundo do poder dos arcônidas, os
acontecimentos desse dia o fariam. Não há nada mais difícil que evitar uma
guerra decidida por uma humanidade desesperada.
Ficou sentado, até que a lua
desapareceu detrás do horizonte.
Subitamente, sentiu frio.
Teve impressão de que juntamente com a lua desaparecera um lindo rosto de
mulher, com os cabelos claros e olhos vermelho-dourados...
O mecanismo gigantesco
entrou em funcionamento.
Durante anos ficara à espera
deste momento. Milhares de exercícios haviam demonstrado seu impecável
funcionamento, Bastava comprimir um botão, para desencadear a reação em cadeia
que não poderia ser mais detida.
Pequim: meio-dia...
O presidente da Federação
Asiática fez um sinal de cabeça para o marechal Lao Lin-to, que se encontrava
no comando supremo das Forças Armadas, em substituição ao marechal Roon,
recolhido à prisão.
Lin pegou o telefone pelo
qual se comunicava diretamente com o comando das posições de combate.
— É a constelação das
Plêiades? As esquadrilhas decolam imediatamente. Grau de mobilização número um.
Bases de foguetes ocidentais: ordem de fogo; alcance sete. Esquadra: zarpar
direção leste. Daqui a dez minutos, tudo deverá estar terminado. Recolher todas
as tropas terrestres aos abrigos antiatômicos. Aguardar contra-ataque. Fim da
transmissão.
Em algum lugar uma mão
aproximou-se de um botão vermelho. Hesitou por uma fração de segundo. Depois, o
polegar comprimiu profundamente o botão.
Um continente estremeceu.
Os torpedos prateados
ocultos nas profundezas subiram para o céu azul, pareciam ir em busca do sol,
depois dirigiram-se para o leste ou para o oeste. Eram centenas, milhares,
dezenas de milhares...
Nos aeroportos militares
reinava uma atividade febril. Uma esquadrilha após a outra erguia-se
pesadamente com sua carga mortífera, entrava em formação e subia para a
estratosfera, seguindo o curso preestabelecido.
A força naval seguiu com
menos rapidez. Desferiria o golpe de misericórdia num mundo destruído. Talvez
também pretendesse escapar ao extermínio que se abateria implacavelmente sobre
os portos.
Tudo ocorreu em conformidade
com o plano.
Só houve um ato que foi
praticado independentemente de qualquer ordem, isso numa barraca montada em
algum dos aeroportos militares.
Um agente do ocidente
dedilhou febrilmente a tecla do telégrafo. Em menos de um vigésimo de segundo
os sinais deram a volta ao mundo.
Exatamente um minuto e
dezoito segundos depois que o polegar amarelo comprimiu o botão vermelho, a
mesma operação repetiu-se em Washington; uma máquina idêntica entrou em
funcionamento. Não havia nada que a distinguisse daquela montada no Extremo
Oriente. A única diferença foi que, aqui, os foguetes foram disparados para o
céu noturno, deixando caudas luminosas atrás de si e desaparecendo por entre
as estrelas.
Talvez fossem um pouco mais
rápidos que os da Federação Asiática. Nesse caso a morte não chegaria com uma
diferença de setenta e oito segundos. Golpearia simultaneamente de ambos os
lados.
Apenas os projéteis
disparados pelos submarinos atômicos estacionados em todos os mares do mundo
seriam mais rápidos, pois teriam menor distância a percorrer.
Quanto tempo ainda restaria?
Dez minutos, talvez quinze. Depois chegaria o fim do mundo.
Moscou esperou exatamente
dois minutos.
Depois, também aqui alguém
comprimiu o botão vermelho. Os mísseis precipitaram-se para o céu matutino e
entraram no seu rumo. Contavam-se por milhares. E em certo momento a diferença
das ações empreendidas nas outras partes do mundo tornou-se patente.
Os mísseis do bloco oriental
foram todos disparados numa só direção — ou melhor, para um único alvo.
Se alguém prolongasse as
linhas das respectivas trajetórias, chegaria à conclusão de que todas elas
convergiam num ponto. E esse ponto correspondia ao lugar em que a Stardust se
abrigava sob o anteparo energético, isolada do mundo e da destruição que se
aproximava.
O sol brilhava em Moscou.
Pelas indicações dos
aparelhos de radar, instalados nas fronteiras do gigantesco país, os mísseis da
Federação Asiática estavam passando pelas camadas da atmosfera, ainda longe do
destino. Nenhum deles desceria no território do bloco oriental.
Os primeiros mísseis do
bloco ocidental demonstravam tendência semelhante.
O marechal Petronsky acenou
com a cabeça em direção ao primeiro-ministro, numa expressão de triunfo
indissimulado.
— Conseguimos. Daqui a meia
hora a Federação Asiática não existirá mais; o bloco ocidental e a América
também terão deixado de existir. E essa maldita base no deserto de Gobi terá
sido varrida da face da Terra. Só restará uma única potência: a nossa.
— É a arte da sobrevivência,
caro marechal, apenas a arte da sobrevivência. Ela só está ao alcance de quem
se mantém neutro.
O silêncio da expectativa
desceu sobre os dois homens. Não só sobre eles. Sobre toda a Terra. Parecia que
os últimos minutos que separavam a humanidade do fim não queriam passar.
Arrastaram-se interminavelmente, transformaram-se numa eternidade. A humanidade
conteve a respiração.
Os primeiros foguetes
Polaris penetraram nas camadas mais profundas da atmosfera. Aproximaram-se da
área em que se situava o alvo. Sua trajetória assumiu a forma de uma curva
balística, tornou-se cada vez mais íngreme — e então desceram verticalmente,
penetraram profundamente na terra e tudo que deixaram foram crateras pequenas,
verdadeiramente ridículas.
Nenhuma detonação. Nenhuma
explosão atômica. Nenhum cogumelo de gases.
A vaga dos gigantescos
mísseis intercontinentais acabou de cruzar o Pacífico. O poder explosivo de
cada um deles era tão grande que seria capaz de destruir toda vida num raio de
cem quilômetros. Por isso, suas trajetórias foram se dispersando durante o vôo.
Chegaram ao continente americano como se fossem uma linha bastante tênue de
soldados de infantaria. Não detonaram nos pontos previstos, e seu próprio
impulso tangeu-os terra adentro até que caíssem nas montanhas, nas matas ou nas
estepes. Um único projétil da segunda série caiu em pleno centro de Los
Angeles, porque o mecanismo propulsor deixou de funcionar antes do tempo.
Perfurou um edifício de oito pavimentos e ficou enterrado nos alicerces.
Com os mísseis americanos
ocorreu a mesma coisa. Não houve um único entre eles que detonasse ou caísse em
território densamente povoado. Conforme se constatou mais tarde, só causaram
pequenos danos materiais.
Nos oceanos, desenrolou-se
um quadro grotesco.
Uma esquadrilha de aviões de
bombardeio dos Estados Unidos avistaram a esquadra da Federação Asiática a mais
de duzentos quilômetros de distância, junto ao litoral da Ásia. Os porta-aviões
e os cruzadores pesados, os destróieres e os contratorpedeiros, até mesmo os
submarinos estavam imóveis na superfície calma do mar.
O coronel-aviador Bryan
Neldiss deu ordem de ataque. Não sabia explicar o procedimento do inimigo, que
surgira tão inesperadamente, mas não quis deixar que uma presa tão gorda lhe
escapasse.
Os aparelhos de rádio
permaneceram mudos. O coronel não obteve confirmação da ordem que ele expedira
e sem que ele movesse um dedo, o avião começou a descer. A esquadrilha seguiu-o
e os aparelhos pousaram n’água, bem perto dos navios inimigos.
Todo mundo apressou-se em
deixar os aviões que afundavam rapidamente. As tripulações foram recolhidas por
barcos infláveis.
O Almirante Sen Toa não
expediu a ordem de fogo que estava prevista, em lugar disso ordenou a operação
de salvamento. Os barcos foram colocados na água e mãos prestativas tiraram os
americanos do oceano que ondulava suavemente. Dentro de meia hora tudo estava
terminado. A esquadrilha de aviões de bombardeio dos Estados Unidos foi tragada
pelas águas. A esquadra asiática jazia imóvel, balançando ligeiramente nas
ondas. Parecia que uma mão invisível a segurava.
A 150 quilômetros da costa
ocidental dos Estados Unidos aconteceu a mesma coisa, apenas os papéis foram
invertidos. A única diferença foi que um dos pilotos morreu afogado por não ter
conseguido sair do avião antes que este afundasse.
Um punho invisível
interrompeu a trajetória dos mísseis russos. Estes descreveram uma curva de 180
graus e retornaram às bases de onde tinham sido disparados e penetraram
verticalmente no solo, quase no mesmo lugar de onde tinham partido. Nenhum deles
detonou, muito menos atingiu a Stardust.
A guerra atômica terminara
antes de ter começado.
Houve até o caso de
fazendeiros do oeste dos Estados Unidos e muitos camponeses na China que nem
sabiam o que estava acontecendo. Quando souberam dos foguetes caídos no solo —
depois de restabelecidas as comunicações pelo rádio — deram vazão à sua raiva
sobre a tentativa fútil de se mandar foguetes à Lua. Mas, ao saberem de toda a
verdade, silenciaram imediatamente os protestos.
Alguém havia impedido a
guerra. Um homem revelara-se mais forte que as grandes potências. Desafiou-as e
impôs-lhes a paz pela força. Esse homem era Perry Rhodan.
Mas não foi por muito tempo
que Perry Rhodan ficou sendo o herói dos homens do povo. Para os que exerciam o
domínio do mundo, a humilhação foi insuportável. Sentiram-se tomados de pavor
quando se viram derrubados do trono do poder.
Nenhum deles conseguiria
romper, sozinho, a supremacia temível de Perry Rhodan. Mas se reunissem seus
esforços? Quem sabe...
A percepção desse estado de coisas
desencadeou uma atividade diplomática febril.
De Pequim para Washington:
Lamentamos o mal-entendido
que quase causou uma guerra mundial. Sugerimos que nossos dirigentes realizem
um encontro com a maior brevidade. Deixamos a seu cargo a indicação do local.
De Pequim para Moscou:
Convida-se o
primeiro-ministro do bloco oriental a participar do encontro entre os
presidentes da Federação Asiática e do bloco ocidental, que se realizará daqui
a dois dias.
De Pequim para Washington:
Concordamos em que a conferência
se realize no Cairo.
De Washington para Pequim e
Moscou:
O governo do bloco ocidental
declarou a tripulação da Stardust inimigo público número um. Propomos à
Federação Asiática que, uma vez esclarecida a situação política mundial,
prepare uma expedição lunar conjunta.
De Pequim para Washington:
Concordamos.
De Pequim para o Comando
Espacial da Federação Asiática (mensagem estritamente confidencial):
Acelerar imediatamente os
preparativos para a decolagem de outra nave espacial. Os trabalhos deverão ser
mantidos em segredo.
Do Cairo para Washington,
Pequim e Moscou:
Preparativos concluídos.
Aguardamos os presidentes das grandes potências e sentimo-nos honrados...
Dois dias depois.
— Fomos expulsos da comunhão
dos povos — lamentou-se Bell.
Quem não o conhecesse,
pensaria que dali a pouco irromperia em lágrimas.
— Somos inimigos públicos e
criminosos. Por quê? Só porque impedimos a guerra.
— Você se admira com isso? —
Rhodan ergueu as sobrancelhas. — Ao impedirmos a guerra, provamos que somos
mais fortes que eles. No Cairo, chegaram a um acordo. As grandes potências da
Terra uniram-se para nos destruir. Não poderia imaginar coisa melhor.
— Não poderia imaginar coisa
melhor? O que quer dizer com isso, meu caro?
— Nenhuma nação deve
conquistar o espaço. É o homem como habitante do nosso planeta que deve
fazê-lo. A união formada contra nós representa o primeiro passo de uma comunhão
de idéias entre todos os povos. O medo cimenta a unidade dos homens. Com o
auxílio dos arcônidas conseguimos atingir um grande objetivo. Unimos o mundo.
— E, por isso, nos expulsam?
— É o preço que temos de
pagar.
Bell coçou a cabeça.
— Será que Fletcher chegou
em casa?
— Não sei. De qualquer
maneira, seu nome não foi mencionado por ninguém. Só você, Manoli e eu somos
inimigos públicos. Ainda não sabem da existência de Crest. Há, ainda, uma
surpresa guardada para os homens.
Bell apontou para o céu
azul.
— Thora desempenhou muito
bem o seu papel no jogo. Não posso deixar de reconhecer isso. Se não fosse ela,
a esta hora estaríamos em maus lençóis.
Rhodan abanou lentamente a
cabeça.
— Não estaríamos em situação
pior. Apenas acontece que seríamos os últimos homens do planeta.
Subitamente Crest surgiu na
porta da sala do comando.
— No destino de sua raça
vejo o renascimento da minha — disse pensativo. — Vejo a evolução com toda a
nitidez. É verdade que poderão surgir incidentes; é um detalhe que não deverão
esquecer. Ainda não eliminamos totalmente o perigo, mas demos o primeiro passo
nesse sentido. Às vezes o medo é a melhor terapia.
— Mas não deve continuar a
sê-lo para sempre — objetou Perry com voz séria. — Há de chegar o dia em que a
união entre os homens não resulte do medo, mas de um imperativo da consciência,
do raciocínio lógico e, até, da voz do coração. É claro que esse estado não
poderá ser alcançado de hoje para amanhã, mas sei que um dia será assim. Farei
tudo o que estiver ao meu alcance para que...
Crest colocou-lhe a mão
sobre o ombro e disse em tom suave:
— Você já fez, Perry. Talvez
você seja um ser que eu, que venho de fora do seu mundo, designaria como
terrano. É isso mesmo! Você, Perry Rhodan, é o primeiro terrano.
— E eu? O que sou? —
perguntou Bell sentido.
O Dr. Manoli, sempre calado,
respondeu com uma observação bastante apropriada:
— Antes de sermos terranos,
temos que ser homens.
Bell fez pouco caso e
deslocou seu corpanzil em direção à saída.
— Vou nadar no lago —
declarou.
Manoli limitou-se a
cochichar-lhe:
— Faz bem. Vá curtir-se ao
sal...
Crest sorriu em silêncio.
Perry Rhodan parecia nada
ter ouvido. Parado junto à cúpula transparente, olhava para o céu azul. Em
algum ponto, lá no alto, a Lua descrevia sua órbita solitária em torno da
Terra.
* *
*
A maior parte dos homens ainda considera
Perry Rhodan um traidor, mas algumas pessoas sensatas já começam a compreender
que ele só visa ao bem da humanidade. E esses homens dirigem-se à Abóbada
Energética, que nem mesmo o fogo cerrado mais intenso consegue romper.
A série Perry Rhodan é incrivel pela sua longevidade e considerando-se a época de suas publicações!
ResponderExcluirIniciando em 1961, ela é publicada ininterruptamente na Alemanha, toda semana, sendo que nesta data está no número 2703.
Existem também as publicações correlacionadas (Atlan, Romances Planetários, etc), e o "reboot" da série "Perry Rhodan NEO", que iniciou em 2011.
O conjunto de obras somam mais de 5000 livros!!!
Professor Francisco, e demais interessados e curiosos, querendo entre em contato/sigam os meus perfis públicos, onde praticamente só posto informações sobre a série Perry Rhodan:
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Quaisquer perguntas/informações, terei satisfação em responder.
Até mais,
DIO
Olá DIO, bom dia!
ResponderExcluirGrato pelas informações e pelos links. Penso que em originalidade no gênero, a supracitada série teria só um concorrente à altura: "Jornada nas Estrelas". Li quase todos os livros publicados no Brasil pela Tecnoprint, atraido pela lógica científica e pela criatividade: cada livro nos proporciona uma nova surpresa.
Quando falei sobre esta imensa obra para nossos alunos, iniciei contando que eu havia viajado, há alguns anos, em uma nave enorme chamada "Crest", que havia percorrido dimensões inimagináveis de tempo e espaço e vivido aventuras com personagens incríveis. Isso para explicar o que chamamos tecnicamente de "contrato de enunciação", ou seja, o ato do leitor de penetrar na obra e viver o enredo.
Assim que puder, vou fazer uma postagens de seus links.
Até mais e mais uma vez, grato pela visita e pelas informações.
At.te
Francisco
PS: Se H.G. Wells e Julio Verne pudessem ver isso...eles estão entre os grandes precursores do gênero.